Invisibilidade de mulheres e meninas agrava os impactos da crise de saneamento no Brasil

Embora o Brasil apresente números globais que sugerem avanços no setor hídrico, a realidade escondida sob as estatísticas revela um cenário de exclusão profunda. Dados recentes da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) indicam que o descumprimento das metas de desenvolvimento sustentável da ONU afeta, de maneira desproporcional, o público feminino. Para mulheres e meninas, a falta de uma torneira funcionando ou de rede de esgoto não é apenas um problema de infraestrutura, mas uma barreira direta à dignidade, à educação e à segurança pessoal.

Recortes de desigualdade geográfica e racial
O monitoramento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 6) aponta que 98,1% dos brasileiros possuem acesso a água potável, mas esse índice é enganoso ao ignorar as disparidades regionais. Nas zonas rurais, a cobertura despenca para 88%, chegando a níveis ainda mais críticos no Norte (79,4%) e no Nordeste (81,9%).

O saneamento básico apresenta um quadro ainda mais alarmante: apenas 59,9% da população nacional conta com esgotamento sanitário seguro. No recorte racial, a população não branca — composta por pretos, pardos e indígenas — é a que mais sofre com a ausência desses serviços, evidenciando que a exclusão hídrica no Brasil possui cor e endereço definido nas periferias e territórios historicamente marginalizados.

O peso do trabalho não remunerado e a saúde feminina
A ausência de infraestrutura hídrica sobrecarrega as mulheres com jornadas exaustivas de trabalho não remunerado. Sendo as principais responsáveis pela gestão doméstica e pelos cuidados com a família, são elas que precisam buscar água em fontes distantes quando o serviço falha. Essa rotina, além de consumir horas que poderiam ser dedicadas ao estudo ou à geração de renda, expõe mulheres e meninas a riscos de doenças e episódios de violência em trajetos vulneráveis.

Especialistas reforçam que a equidade de gênero é uma meta inalcançável enquanto a água não for um direito garantido. A professora Vera Lessa Catalão, da UNB, destaca que o protagonismo feminino na gestão consciente dos recursos hídricos é vital. Para as mulheres, a água não é um conceito abstrato, mas o recurso essencial para levar os filhos à escola e manter a higiene do lar, o que as torna as principais articuladoras pela preservação desse direito.

Reflexos na educação e no futuro econômico
O impacto da falta de saneamento ecoa diretamente no desempenho escolar e na produtividade futura do país. De acordo com o Instituto Trata Brasil, o acesso ao saneamento básico amplia a escolaridade média de uma criança em dois anos — passando de 7,5 para 9,5 anos de estudo. Sem as condições mínimas de higiene, o ciclo de pobreza e baixa escolaridade se perpetua, limitando as chances de ingresso no ensino superior e a obtenção de melhores salários na vida adulta.

A ANA enfatiza que não é mais possível dissociar as agendas de clima, justiça social e saneamento. Garantir que o esgoto seja tratado — hoje o Brasil descarta quase metade dos resíduos sem o devido processo — é uma medida urgente de saúde pública e de reparação social para que nenhum grupo seja deixado para trás na corrida pelo desenvolvimento sustentável até 2030. Com informações da Agência Brasil

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