Como as bets e jogos online endividaram e adoeceram os brasileiros

O peso das perdas e o recomeço

O impacto devastador das plataformas de apostas virtuais gerou consequências profundas na vida de cidadãos em todo o território nacional. *Kaio, de 42 anos, relatou um sentimento de alívio ao saber da proibição das operações dessas empresas no Brasil, anunciada na sexta-feira (25) por meio da Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O texto revogou o capítulo 5 da Lei 13.756, de dezembro de 2018, aprovada no final do governo de Michel Temer.

A trajetória pessoal de Kaio foi marcada por perdas significativas após o envolvimento com os jogos, incluindo o emprego, a casa e o carro. Atualmente morando em um dormitório no interior de Goiás e distante dos familiares por segurança devido a dívidas com agiotas, ele buscou suporte médico e terapêutico em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps). No local, faz uso diário de medicamentos para lidar com os reflexos do transtorno.

Regulação tardia e publicidade agressiva
Especialistas apontam que a ausência de fiscalização adequada contribuiu para o cenário de crise. Embora aprovadas em 2018, as plataformas operaram sem regras rígidas por cerca de cinco anos, sendo regulamentadas apenas em dezembro de 2023. A legislação previa obrigações como alertas de advertência e bloqueio de usuários compulsivos, mas advogados e afetados destacam que essas diretrizes não foram cumpridas na prática, enquanto mensagens promocionais continuavam a ser enviadas incessantemente aos apostadores.

A psiquiatra Katia Branco, do Hospital das Clínicas de São Paulo, explica que indivíduos em situação de vulnerabilidade tornaram-se alvos fáceis de propagandas que sugeriam o jogo como complemento de renda. Dados do Boletim Fiscal dos Estados, publicado pelo Comsefaz, revelam que apenas no ano passado as famílias brasileiras acumularam um déficit de R$ 62,5 bilhões entre apostas e prêmios devolvidos, movimentando cerca de R$ 351 bilhões por meio de transações via Pix de outubro de 2024 a março de 2026.

O envolvimento de jovens e os riscos à saúde mental
O fenômeno também atingiu crianças e adolescentes. Um estudo encomendado pela Frente Parlamentar Mista da Educação apontou que 20,4% dos alunos do ensino fundamental e médio realizaram apostas online, com registros iniciais a partir dos 11 anos de idade. Psicólogos esclarecem que o cérebro jovem, com sistemas de recompensa acelerados e áreas de autocontrole ainda em desenvolvimento, apresenta maior propensão à dependência.

Quadros graves de ansiedade, isolamento e ideação suicida foram identificados por profissionais de saúde entre apostadores de diferentes idades. Diante do problema agravado pela facilidade de acesso constante aos jogos, o Sistema Único de Saúde ampliou o teleatendimento e o Ministério da Saúde planeja ações de busca ativa para oferecer suporte e tratamento aos dependentes.

*Nomes fictícios a pedido dos entrevistados

Com informações da Agência Brasil.

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