Estudo aponta que negacionismo fez brasileiros “perderem” 3,4 anos de vida na pandemia
O impacto da crise da covid-19 na dinâmica demográfica brasileira atingiu proporções alarmantes, provocando um encolhimento de 3,4 anos na expectativa de vida da população. O dado alarmante foi extraído da análise nacional do Estudo Carga Global de Doenças, considerado o maior levantamento científico do planeta sobre a incidência de enfermidades e riscos à saúde, divulgado na edição deste mês do periódico internacional The Lancet Regional Health – Americas.
De acordo com o corpo de pesquisadores responsável pelo relatório, o retrocesso estatístico está diretamente vinculado à conduta de negação científica adotada pela administração federal do período, sob a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro. As análises apontam que as esferas centrais de poder enfraqueceram as recomendações sanitárias ao rejeitarem o distanciamento físico, propagarem informações falsas, incentivarem o uso de terapias sem comprovação de eficácia e retardarem a compra de imunizantes sob o pretexto de resguardar a atividade financeira do país.
Descentralização de medidas gera contrastes marcantes entre o Norte e o Nordeste
Embora o declínio na longevidade média tenha afetado todo o território nacional, o nível de severidade apresentou oscilações profundas entre os estados. As três unidades federativas que registraram os maiores índices de encolhimento no tempo médio de vida pertencem à região Norte, lideradas por Rondônia (com perda de 6,01 anos), Amazonas (5,84 anos) e Roraima (5,67 anos).
No extremo oposto do monitoramento, os menores impactos negativos foram observados em estados da região Nordeste, onde o Maranhão limitou a redução a 1,86 anos, seguido por Alagoas (2,01 anos) e Rio Grande do Norte (2,11 anos). O relatório associa essa maior resiliência à firmeza dos Executivos estaduais nordestinos que, diante da falta de uma coordenação centralizada em Brasília, estruturaram um consórcio próprio amparado por um comitê científico independente. Esse alinhamento técnico permitiu a implementação coordenada de restrições comerciais, interrupção de aulas presenciais, uso obrigatório de máscaras e monitoramento de dados epidemiológicos em tempo real.
Os especialistas defendem que o dano total à saúde pública poderia ter sido substancialmente atenuado em todo o país caso a postura baseada em evidências tivesse sido adotada em âmbito nacional. Devido a esses entraves políticos, o desempenho brasileiro superou negativamente os indicadores de vizinhos do Mercosul, como Uruguai e Argentina, além de parceiros do bloco dos Brics, como Índia e China. O país, historicamente reconhecido pela eficiência e capilaridade de suas campanhas de vacinação, acabou figurando nas posições traseiras da imunização global por falhas de planejamento e foco em tratamentos ineficazes.
Avanços históricos na saúde pública garantem evolução positiva em longo prazo
Apesar do forte impacto negativo trazido pela pandemia, o balanço de longo prazo do cenário de saúde no Brasil ainda acumula conquistas importantes. Em um recorte temporal expandido entre os anos de 1990 e 2023, a expectativa de vida média do cidadão brasileiro avançou 7,18 anos. No mesmo intervalo, a taxa de mortalidade padronizada por idade — indicador que isola as distorções provocadas pelo envelhecimento natural da população — registrou um recuo expressivo de 34,5%.
Da mesma forma, o índice que calcula os anos produtivos e saudáveis perdidos em decorrência de invalidez ou óbitos precoces encolheu 29,5%. Esse avanço estrutural é atribuído à elevação geral da qualidade de vida, ao crescimento da economia e à expansão das redes de saneamento básico. No campo institucional, a consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS), o fortalecimento da Estratégia de Saúde da Família e a ampliação do acesso a vacinas de rotina foram fundamentais para derrubar os índices das principais patologias letais nas últimas décadas.
Doenças crônicas e violência interpessoal lideram as causas de óbito no país
O estudo destaca que as únicas exceções à tendência de queda na mortalidade de longo prazo foram o Alzheimer e demências correlatas, que subiram 1%, e as complicações renais crônicas, que apresentaram elevação de 9,6% no período de 1990 a 2023. No fechamento estatístico de 2023, as complicações decorrentes de doenças isquêmicas do coração mantiveram a liderança isolada como a principal causa de mortes em solo nacional, seguidas de perto pelos acidentes vasculares cerebrais (AVC) e por infecções do trato respiratório inferior.
Por outro lado, quando a análise se desloca para mensurar as perdas de vidas que ocorrem de forma prematura, o principal fator de impacto passa a ser a violência interpessoal. A gravidade da segurança pública e dos homicídios faz com que o Brasil perca, anualmente, uma média de 1.351 anos de existência saudável a cada grupo de cem mil cidadãos devido a mortes violentas e intencionais, consolidando-se como um dos maiores gargalos socioeconômicos da atualidade. Com informações da Agência Brasil

