Além da imprudência: saúde dos motoristas é causa de quase 30% dos acidentes em rodovias
O trânsito brasileiro não é perigoso apenas pela velocidade ou por pistas mal conservadas. Um levantamento inédito da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet), baseado em uma década de registros da Polícia Rodoviária Federal (PRF), revela um dado alarmante: transtornos de saúde física e mental dos condutores foram responsáveis por 27,8% de todos os sinistros ocorridos em rodovias federais entre 2014 e 2024.
Na prática, isso significa que em quase um terço das ocorrências, o motivo real da batida ou do atropelamento foi o sono, a fadiga, o uso de substâncias, transtornos psicológicos ou males súbitos.
O peso do fator humano e do bem-estar no volante
O estudo analisou mais de 4,3 milhões de registros da PRF e identificou que o “fator saúde” é um dos pilares da insegurança viária. Somado ao chamado “fator humano” — que engloba comportamentos imprudentes como excesso de velocidade e ultrapassagens proibidas (49% dos casos) —, o estado do motorista responde por cerca de 80% das tragédias nas estradas.
A metodologia da PRF permitiu que a Abramet identificasse causas silenciosas, como distúrbios neurológicos, problemas motores, doenças oculares e a ausência de reação por cansaço extremo. Esses dados contestam a visão de que a infraestrutura é a única culpada pela violência no asfalto: falhas técnicas nas rodovias respondem por apenas 8% das ocorrências, enquanto problemas mecânicos nos veículos representam 7%.
Geografia do cansaço e das doenças mentais
A análise regional mostra que o impacto da saúde no trânsito não é uniforme. Em estados marcados por longos trajetos de transporte de cargas e viagens exaustivas, o percentual de acidentes causados por problemas de saúde ultrapassa a média nacional.
Roraima lidera esse ranking proporcional, com 35,1% das ocorrências ligadas à saúde. Outros estados com forte movimentação logística também apresentam índices preocupantes, como Mato Grosso do Sul (32,1%), Pará (30,3%) e Rio Grande do Sul (30,1%). O cansaço acumulado de caminhoneiros e motoristas de longa distância, muitas vezes associado ao uso de álcool ou substâncias psicoativas para suportar a jornada, é um fator recorrente nos relatos policiais dessas regiões.
Minas Gerais lidera o ranking em números absolutos
Quando se observa o volume total de ocorrências, o estado de Minas Gerais — dono da maior malha rodoviária federal do país — aparece no topo da lista. Foram mais de 154 mil sinistros causados por problemas de saúde em dez anos. O Paraná e Santa Catarina seguem logo atrás, com 134 mil e 120 mil registros, respectivamente.
Para os especialistas da Abramet, os dados reforçam a necessidade de políticas públicas focadas na saúde ocupacional dos motoristas profissionais e na conscientização sobre o descanso. O diagnóstico é claro: cuidar da mente e do corpo de quem dirige é tão vital quanto reformar o asfalto ou fiscalizar a velocidade para salvar vidas nas rodovias brasileiras. Com informações da Agência Brasil
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