Educação antirracista mobiliza escolas de Pará de Minas

A formação de professores e profissionais da rede municipal de ensino estará no centro de uma palestra sobre combate ao racismo, valorização da cultura afro-brasileira e respeito à identidade negra. A atividade será realizada neste sábado, 24 de outubro, das 7h às 11h, na Estação Cultural, em Pará de Minas. Com o tema “Ou a educação é antirracista ou não é educação”, o encontro integra o projeto Estação Afro, promovido pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Comunicação Institucional, em parceria com o Coletivo Afroatitude.

A palestra será conduzida por Bruno Egonu, mestre em Educação e Docência pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), pesquisador das relações étnico-raciais e integrante do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Belo Horizonte. A proposta é oferecer conhecimentos e ferramentas para que profissionais da educação reconheçam situações de discriminação e contribuam para ambientes escolares mais acolhedores.

Parceria amplia alcance da formação
O responsável pela Estação Cultural, Higor Duarte, explica que o Estação Afro vem ampliando sua atuação ao combinar manifestações artísticas e atividades educativas. Para ele, a cultura não se limita às apresentações: também está relacionada à memória, à educação e à construção da identidade.

Divulgação/Prefeitura de Pará de Minas

Higor destaca que a parceria com grupos e coletivos que já desenvolvem trabalhos culturais em Pará de Minas fortalece o projeto e amplia a presença dessas iniciativas nos espaços públicos. A intenção é dar visibilidade às ações existentes e alcançar cada vez mais pessoas por meio de palestras, exposições e apresentações artísticas.

A edição deste sábado também representa uma oportunidade de aproximar a discussão sobre relações raciais dos profissionais que atuam diretamente com crianças e adolescentes.

Racismo velado exige conhecimento e intervenção
O diretor do Coletivo Afroatitude, Rony Morais, ressalta que o enfrentamento ao racismo nas escolas exige preparo para identificar e combater atitudes que, muitas vezes, são tratadas como brincadeiras. Comentários depreciativos sobre a cor da pele, o cabelo, o nariz ou a origem de uma criança negra podem provocar sofrimento e afetar a formação de sua identidade.

Segundo Rony, a proposta é trabalhar o tema com base no conhecimento, incluindo a Lei Federal nº 10.639, que trata do ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana, além de apresentar dados sobre o racismo no país.

O educador defende que professores e demais profissionais das escolas estejam preparados para intervir diante de situações discriminatórias. Essa responsabilidade, na avaliação dele, não deve ficar restrita aos docentes, mas envolver todos os trabalhadores do ambiente escolar, desde a portaria até a cozinha.

Rony alerta que uma atitude considerada inofensiva por algumas pessoas pode representar humilhação ou deixar marcas em quem a recebe. Por isso, considera fundamental que a escola reconheça essas situações e valorize a história e as contribuições da população negra para a formação do Brasil.

Divulgação/Prefeitura de Pará de Minas

Cultura afro-brasileira precisa ser valorizada
Outro ponto destacado por Rony é a necessidade de reconhecer a presença da cultura negra em diferentes manifestações que fazem parte da vida cotidiana, como música, dança e festas. Apesar dessa contribuição, ele avalia que a história e o protagonismo da população negra nem sempre recebem o devido espaço nos conteúdos apresentados nas escolas.

A formação pretende estimular os participantes a rever práticas e abordagens, além de oferecer subsídios para que possam trabalhar essas questões em suas próprias unidades de ensino.

A Secretaria Municipal de Cultura e Comunicação Institucional e a Secretaria Municipal de Educação participam da articulação que viabiliza o encontro. De acordo com Rony, profissionais das 34 unidades da rede municipal terão a oportunidade de participar da manhã de formação e levar os conhecimentos adquiridos para suas comunidades escolares.

Teatro também ajuda a transformar percepções
A experiência de Rony Morais com as artes cênicas também integra sua atuação na valorização da identidade negra. Ele conta que tem trabalhado na montagem de peças que abordam a história da população negra, referências africanas e a contribuição dessa cultura para o Brasil.

Nas apresentações, personagens negros ocupam diferentes posições, como médicos, reis e anjos. A intenção é questionar padrões que restringem as possibilidades de representação e mostrar às crianças que esses lugares também lhes pertencem.

Para Rony, o teatro permite que os participantes vivenciem outras perspectivas e questionem ideias preconcebidas. A experiência artística pode contribuir para que crianças e jovens reconheçam novas possibilidades para suas próprias trajetórias.

Ele também cita os grupos de teatro Tatubola e Colibri, ligados às comunidades do Padre Libério e do Recanto da Lagoa. Segundo o diretor, participantes desses grupos tiveram experiências em locais como a UFMG, São Paulo, Rio de Janeiro e Europa. Alguns seguiram para universidades, retornaram ao município e hoje atuam como agentes de transformação.

O exemplo, na avaliação dele, demonstra a capacidade da educação e da arte de ampliar horizontes e contribuir para que jovens da periferia conquistem espaços de protagonismo.

Formação busca alcançar a realidade das escolas
A realização da palestra na Estação Cultural também tem significado estratégico para o Coletivo Afroatitude. Rony explica que o grupo promove atividades de valorização da cultura negra desde 2009, mas a parceria com as secretarias municipais permite alcançar um público maior.

Com a participação de representantes das escolas, a expectativa é que os conhecimentos apresentados por Bruno Egonu sejam compartilhados e aplicados em diferentes contextos da rede municipal.

Higor Duarte, por sua vez, destaca que a união entre o poder público e os coletivos culturais fortalece iniciativas que já existem na cidade e amplia o acesso da população a atividades de formação e conscientização.

A proposta do Estação Afro é aproximar cultura, educação e memória, promovendo a valorização das raízes afro-brasileiras e incentivando ações concretas contra o racismo.

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