Ciência brasileira publica maior mapeamento do mundo sobre impactos do vírus zika em crianças

Um consórcio formado por cientistas de diversos estados brasileiros acaba de entregar à comunidade internacional o estudo mais robusto já realizado sobre as consequências da síndrome congênita do zika. Publicado no final de dezembro de 2025 no periódico científico PLOS Global Public Health, o levantamento do Consórcio Brasileiro de Coortes de Zika (ZBC-Consórcio) analisou dados de 843 crianças com microcefalia nascidas entre 2015 e 2018. O trabalho é um marco para a saúde pública, pois substitui análises individuais por uma visão panorâmica e padronizada sobre o espectro da doença.

A pesquisadora Maria Elizabeth Lopes Moreira, da Fiocruz, explica que a amplitude da amostra permitiu, pela primeira vez, descrever com precisão a anatomia específica da microcefalia por zika. Diferente de outras causas, em que o cérebro apenas se desenvolve em tamanho menor, no caso do vírus zika ocorre um verdadeiro colapso da estrutura cerebral e óssea, muitas vezes após um período de crescimento normal durante a gestação.

O espectro da gravidade e as sequelas permanentes
A investigação detalhou a complexidade das malformações. Entre os resultados mais alarmantes, os exames de neuroimagem revelaram calcificações cerebrais em 81,7% dos pacientes e atrofia cortical em metade dos casos. Além da microcefalia evidente ao nascer, que atingiu 71,3% do grupo, os pesquisadores identificaram a existência da microcefalia pós-natal, que surge conforme a criança cresce.

As sequelas não se limitam à estrutura do crânio. O estudo aponta que as crianças enfrentam um quadro severo de distúrbios neurológicos, incluindo epilepsia de difícil controle em quase 60% dos casos e déficits de atenção social. Problemas sensoriais também são predominantes, com alterações oftalmológicas afetando 67,1% das crianças estudadas.

O desafio da inclusão e a realidade das famílias
Dez anos após o início da epidemia no Brasil, o cenário social revelado pela pesquisa é desafiador. Cerca de 30% das crianças que integraram o estudo original já faleceram. As sobreviventes, agora com idades entre 8 e 10 anos, enfrentam barreiras severas na inclusão escolar. Enquanto algumas sofrem com paralisia cerebral grave, outras apresentam déficits de aprendizagem que exigem suporte especializado nem sempre disponível.

A carga social recai majoritariamente sobre as mães. Segundo Maria Elizabeth, é comum o abandono familiar por parte dos pais após o diagnóstico, o que sobrecarrega mulheres que precisam peregrinar por diferentes serviços do SUS em busca de atendimento multidisciplinar vitalício.

Neuroplasticidade e a urgência da estimulação precoce
Embora não exista cura ou vacina disponível, os cientistas reforçam que a intervenção imediata pode mudar o prognóstico. O conceito de neuroplasticidade — a capacidade do cérebro de formar novas conexões e células — é a maior aliada no tratamento. A recomendação é que a estimulação fisioterapêutica e fonoaudiológica comece logo após o nascimento.

Essa orientação vale inclusive para bebês que nasceram sem microcefalia aparente, mas cujas mães foram expostas ao vírus durante a gravidez. Estima-se que 70% dos casos de infecção em gestantes sejam assintomáticos, o que torna o acompanhamento do desenvolvimento infantil fundamental para detectar atrasos sutis que respondem bem a estímulos precoces.

Prevenção e o futuro das pesquisas
Enquanto uma vacina para mulheres em idade fértil não é desenvolvida, a prevenção segue focada no combate ao mosquito Aedes aegypti. O uso de repelentes e roupas longas por gestantes continua sendo a principal barreira contra o vírus.

Os pesquisadores do ZBC-Consórcio pretendem agora aprofundar a investigação sobre os impactos da doença na vida escolar, especialmente para o grupo de crianças que não apresenta malformações físicas, mas que pode carregar distúrbios cognitivos silenciosos derivados da exposição intrauterina ao vírus. Com informações da Agência Brasil

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