Estratégia e vigor: o avanço do trigo tropical no Cerrado brasileiro

O Cerrado brasileiro está consolidando sua posição como uma nova fronteira para a triticultura nacional. Seja no sistema de sequeiro ou sob irrigação, o trigo tropical tem avançado de forma consistente, saltando de 200 mil hectares em 2018 para expressivos 360 mil hectares em 2025. No entanto, especialistas e produtores são unânimes: no ambiente tropical, o sucesso da lavoura não nasce no campo, mas em um planejamento minucioso que antecede a semeadura.

Planejamento como pilar do rendimento
O cultivo de trigo em regiões como Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Mato Grosso do Sul exige que o produtor responda a questões cruciais muito antes de ligar o trator. De acordo com o pesquisador Jorge Chagas, da Embrapa Trigo, é necessário avaliar desde a logística de venda e qualidade do grão até o histórico da área.

A integração com o sistema de rotação de culturas é um dos pontos fundamentais. Aproveitar o residual de adubação de hortaliças ou sincronizar a janela de plantio logo após a colheita da soja ou do milho define a viabilidade econômica do projeto. Como o Cerrado não é uma região tradicional para o cereal, antecipar a compra de sementes e defensivos específicos é vital para evitar gargalos durante a safra.

Sequeiro: o desafio da janela hídrica e a nova genética
No sistema de sequeiro, o trigo aproveita a umidade residual do final das chuvas, com plantio entre março e abril. Embora seja uma alternativa de baixo investimento para a safrinha, o risco de estiagem durante o enchimento dos grãos é elevado.

A média histórica gira em torno de 40 sacas por hectare (sc/ha), mas a tecnologia está mudando esse patamar. Um exemplo é a cultivar BRS Savana, o mais recente lançamento da Embrapa. Com ciclo precoce e alta tolerância à brusone — uma das principais doenças fúngicas que atingem as espigas —, ela permite antecipar a semeadura para a primeira quinzena de março.

Enquanto variedades tradicionais como a BRS 264 sofrem com a brusone se plantadas muito cedo, a BRS Savana aproveita melhor o final do período chuvoso, com potencial de rendimento que chega a 80 sc/ha e excelente aptidão para a panificação.

Irrigação: o salto para a alta produtividade
Para quem investe em tecnologia de pivô central, o trigo tropical revela seu potencial máximo. Com rendimentos que variam entre 115 e 125 sc/ha, o sistema irrigado minimiza o risco climático, embora exija um aporte financeiro maior em energia e nutrição nitrogenada.

Resultados impressionantes foram registrados na Fazenda Deusa das Águas, em Alto Paraíso (GO), onde a cultivar BRS 264 superou as 139 sc/ha. O segredo, segundo o produtor José Renato Maichaki, foi o respeito rigoroso ao calendário: semear após 15 de maio.

Essa estratégia é validada pela pesquisa. O especialista Júlio Albrech, da Embrapa Cerrados, aponta que a janela ideal de semeadura para o trigo irrigado vai de 5 a 20 de maio. Plantar antes aumenta o risco de doenças e acelera o ciclo de forma indesejada; plantar depois expõe a planta ao calor excessivo no enchimento de grãos e a chuvas prejudiciais durante a colheita.

O futuro da triticultura tropical
A expansão do trigo para estados como Bahia e o Distrito Federal reforça a resiliência do setor. Seja como uma opção de baixo custo para ocupar a área no sequeiro ou como um sistema de alta performance na irrigação, o trigo tropical prova que, com a genética correta e gestão estratégica, o Cerrado pode ser tão produtivo quanto as tradicionais regiões frias do sul do país. Com informações da Embrapa

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