Uso de inteligência artificial e sensores preditivos desponta como caminho para aliviar o impacto emocional do diabetes no Brasil
O impacto do diabetes na rotina dos brasileiros vai muito além das restrições alimentares e da vigilância com as taxas de açúcar. Uma pesquisa global revelou que a condição interfere de maneira profunda na estabilidade psicológica dos pacientes. No território nacional, 70% das pessoas diagnosticadas relatam que a enfermidade prejudica o bem-estar emocional, gerando um estado de ansiedade constante em relação ao futuro para 78% dos entrevistados. Além disso, o sentimento de solidão e isolamento social devido às exigências do tratamento afeta dois em cada cinco indivíduos.
O levantamento estatístico foi coordenado pelo Global Wellness Institute em parceria com a Roche Diagnóstica, mapeando o cotidiano de mais de 4,3 mil pacientes a partir de dezesseis anos em 22 nações. O Brasil, que ocupa a sexta posição no ranking mundial da doença com 16,6 milhões de adultos afetados segundo dados do Atlas Global do Diabetes da International Diabetes Federation, representou 20% do público consultado. Entre aqueles que convivem especificamente com o diabetes tipo 1 — uma disfunção crônica e hereditária em que o próprio organismo destrói as células pancreáticas que secretam a insulina —, o índice de desgaste emocional atinge a marca de 77%.
Insegurança e oscilações glicêmicas prejudicam o sono e limitam as atividades diárias dos pacientes
As dificuldades cotidianas enfrentadas pelos diabéticos ganharam contornos nítidos na amostragem. Mais da metade dos participantes brasileiros (56%) afirmou sofrer limitações na capacidade de passar o dia todo fora de casa, enquanto 46% apontaram barreiras para gerenciar a saúde em situações rotineiras, como engarrafamentos longos ou reuniões de trabalho extensas. O descanso noturno também é prejudicado, com 55% dos pacientes declarando que não conseguem acordar totalmente dispostos devido às variações e instabilidades nas taxas glicêmicas ocorridas durante o sono.
A insuficiência na produção de insulina ou a incapacidade de o corpo absorvê-la de forma adequada resulta no aumento crônico da glicose, o que pode desencadear falhas severas nas artérias, no coração, nos rins, na visão e no sistema nervoso, além de risco de morte. Diante dessa gravidade, o modelo atual de assistência médica é visto com ressalvas pela maior parte dos entrevistados, e meros 35% demonstram total confiança no gerenciamento autônomo da própria saúde, evidenciando uma lacuna na previsibilidade e no controle da patologia.
Pacientes defendem a incorporação de sensores contínuos e recursos preditivos de inteligência artificial
Como alternativa para mitigar os riscos e o estresse da rotina de cuidados, 44% dos brasileiros ouvidos sustentam que tecnologias inteligentes e capazes de antecipar as mudanças nos níveis de açúcar deveriam ser priorizadas. Entre aqueles que ainda dependem dos glicosímetros tradicionais, que demandam os testes com furos na ponta do dedo, 46% avaliam que os sistemas de monitoramento contínuo de glicose (CGM) precisam ser adotados de forma ampla em razão de suas funções preditivas de alerta.
A chegada da inteligência artificial ao segmento acende uma expectativa de melhora na qualidade de vida. A funcionalidade mais desejada por 53% do público geral — e por 68% dos portadores do tipo 1 — é justamente a estimativa antecipada das taxas futuras. Para 95% dos pacientes com diabetes tipo 1, ferramentas que prevejam episódios iminentes de hipoglicemia (queda severa) ou hiperglicemia (alta severa) são consideradas indispensáveis para dar maior autonomia ao usuário e evitar surpresas desagradáveis que atrapalham o trabalho e os momentos de lazer.
Especialistas apontam que tecnologia reduz custos de internação, mas entraves barram o acesso no SUS
A eficácia dos dispositivos de monitoramento contínuo possui respaldo médico e econômico. O vice-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes, André Vianna, destaca que os sensores fixados na pele permitem ao paciente prever o comportamento da glicemia com até trinta minutos de antecedência, possibilitando intervenções preventivas imediatas. O endocrinologista reforça que o uso da tecnologia reduz de forma drástica as complicações agudas e os gastos públicos com saúde, pois diminui a necessidade de atendimentos em prontos-socorros e internações hospitalares.
No cenário nacional, contudo, o acesso a esses mecanismos expõe uma profunda desigualdade socioeconômica. Embora quatro fabricantes comercializem os aparelhos no Brasil, o uso fica restrito a famílias de maior poder aquisitivo. Em contrapartida, nações de alta renda como o Reino Unido, a França e os Estados Unidos distribuem esses sensores de forma gratuita ou subsidiada por sistemas públicos e operadoras privadas.
Essa disparidade ganhou força após o Ministério da Saúde publicar a Portaria número 2, oficializando a decisão de não incorporar o monitoramento contínuo de glicose por escaneamento intermitente no Sistema Único de Saúde para pacientes dos tipos 1 e 2. Na tentativa de reverter esse quadro, a Câmara dos Deputados articula o Projeto de Lei 323/25, já chancelado pela Comissão de Saúde, que visa impor ao SUS a obrigação de ofertar gratuitamente os dispositivos de escaneamento. O texto legislativo aguarda novas avaliações nas comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça, dependendo ainda do crivo das duas Casas do Congresso Nacional para se transformar em lei. Com informações da Agência Brasil

