Desafio do envelhecimento exige novas estratégias para enfrentar o avanço das demências no Brasil
O aumento da expectativa de vida e a mudança no perfil demográfico brasileiro trouxeram para o centro do debate um tema urgente e complexo: a saúde neurológica da população idosa. Dados recentes do Ministério da Saúde revelam que, somente em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) contabilizou 56,2 milhões de procedimentos ambulatoriais ligados ao Alzheimer. O número, que engloba consultas e internações recorrentes, reflete a pressão sobre a rede pública, que também registrou cerca de 30,4 mil óbitos associados à patologia no último ano.
Projeções apontam crescimento drástico de casos nas próximas décadas
A transição demográfica é o principal combustível para a expansão das doenças neurodegenerativas. Atualmente, estima-se que 1,8 milhão de brasileiros com mais de 60 anos convivam com algum tipo de demência. No entanto, o futuro desenha um cenário ainda mais desafiador: a previsão é que esse contingente salte para 5,7 milhões de pessoas até o ano de 2050. No contexto global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que 3 bilhões de indivíduos já possuem alguma condição neurológica, o que representa mais de um terço da população do planeta.
Autonomia e o direito de decidir sobre o próprio cuidado
Um dos aspectos mais delicados no manejo do Alzheimer é a preservação da vontade do paciente. Por ser uma doença progressiva, ela afeta gradualmente a memória, a linguagem e as habilidades motoras, reduzindo a capacidade de autogestão. Especialistas em Bioética defendem que o planejamento sobre o tratamento deve ocorrer nos estágios iniciais, enquanto o indivíduo ainda consegue expressar seus valores e desejos.
Uma ferramenta essencial nesse processo é o chamado “Plano Avançado de Cuidado” (PAC). Trata-se de um registro prévio onde o paciente define suas preferências para o futuro, garantindo que suas escolhas sejam respeitadas mesmo quando a cognição estiver severamente comprometida. Essa estratégia evita conflitos familiares e assegura que o atendimento médico esteja em sintonia com a história e a dignidade do enfermo.
Bioética no enfrentamento da exclusão e negação de direitos
A perda da autonomia relacional é um campo de intensos debates. Muitas vezes, familiares e cuidadores podem ter visões divergentes das do paciente, o que gera dilemas éticos profundos, especialmente em fases de flutuação cognitiva. O desafio das políticas públicas é garantir que pessoas com deficiências psicossociais não sejam excluídas ou vitimizadas, assegurando o acesso a tratamentos que incluem desde medicamentos específicos até terapias complementares de fonoaudiologia e suporte psicossocial oferecidos pelo SUS.
Panorama global e a carência de políticas estruturadas
Apesar de a demência ser hoje a sétima principal causa de morte no mundo e uma das maiores fontes de incapacidade entre idosos, a resposta governamental global ainda é tímida. Menos de um terço das nações possui diretrizes nacionais estruturadas para lidar com transtornos neurológicos. No Brasil, o fortalecimento da rede de assistência e a disseminação de informações sobre o planejamento antecipado são passos fundamentais para que o sistema de saúde e as famílias consigam responder à altura das demandas que o envelhecimento populacional impõe. Com informações da Assessoria de Comunicação da doutoranda em Bioética e Direitos Humanos pela Universidade de Brasília, Nelma Melgaço.


