Estudo revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres
A estrutura da sociedade brasileira repousa sobre os ombros das mulheres, embora esse alicerce seja raramente percebido ou valorizado. Uma pesquisa recente desenvolvida por especialistas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) revela que 90% dos cuidadores informais no país são do sexo feminino. O levantamento joga luz sobre uma realidade exaustiva: mulheres dedicam, em média, quase 10 horas semanais a mais do que os homens em tarefas domésticas e assistência a terceiros, totalizando mais de mil horas anuais de um trabalho silencioso que mantém a engrenagem social em funcionamento.
O perfil da cuidadora e a “ética da responsabilidade”
O estudo, que entrevistou mulheres em áreas urbanas e rurais de Santa Catarina e do Paraná, traçou um perfil nítido de quem assume essa carga. A maioria das cuidadoras são filhas (68%) ou esposas (21%), com idade média de 48 anos. Surpreendentemente, 37% das entrevistadas já são idosas, dedicando o período que deveria ser de descanso ao zelo por maridos ou filhos doentes.
Um dos pontos mais sensíveis da pesquisa é a internalização da obrigação. Ao serem questionadas sobre o motivo de assumirem sozinhas tal responsabilidade, muitas responderam que se trata de uma missão inerente à condição feminina. Segundo a professora Valquiria Elita Renk, uma das autoras do trabalho, essa “ética da responsabilidade” faz com que o cuidado seja visto como algo natural e não como um trabalho técnico e emocional que demanda tempo, saúde e abdicação.
Impacto profundo na vida profissional e nos estudos
A sobrecarga gera consequências imediatas na trajetória pessoal dessas mulheres. Mais de 60% das entrevistadas afirmaram que precisaram abandonar seus empregos ou estudos para se dedicarem integralmente ao familiar. Esse fenômeno afeta desde agricultoras, que deixam o campo, até estudantes e profissionais liberais.
A pesquisadora destaca o conceito da “Geração Sanduíche”: mulheres que administram simultaneamente o emprego formal, a gestão do lar e o cuidado com filhos e pais idosos. O resultado é um quadro frequente de exaustão extrema, solidão e depressão, já que o tempo dedicado ao autocuidado é inexistente diante de uma demanda que, muitas vezes, dura 24 horas por dia.
Exemplos globais e o cenário das políticas públicas
Enquanto o Brasil deu os primeiros passos com a Política Nacional do Cuidado no fim de 2024, outros países já operam sistemas mais robustos de amparo. Na Dinamarca e na Finlândia, assistentes domésticos são custeados pelas municipalidades. No Reino Unido, o Estado oferece compensações financeiras para quem interrompe a carreira para cuidar de parentes, e o Uruguai permite que mulheres se aposentem mais cedo com base no número de filhos.
A defesa das pesquisadoras é que o cuidado seja reconhecido legalmente como trabalho, permitindo inclusive a contagem desse tempo para fins previdenciários. No âmbito jurídico brasileiro, pequenos avanços começam a surgir, como decisões judiciais que determinam o pagamento, por parte de ex-maridos, pelo tempo que a mulher dedicou exclusivamente ao cuidado dos filhos após o divórcio.
Mudança cultural depende da educação das novas gerações
Para reverter esse quadro de invisibilidade, o estudo aponta que a solução não é apenas financeira, mas educacional. A desconstrução da ideia de que o cuidado é uma “obrigação feminina” exige que meninos e meninas sejam educados sob uma nova perspectiva de divisão igualitária das tarefas domésticas. Somente através de um processo humanitário de mudança cultural será possível evitar que as futuras gerações de mulheres continuem sendo sobrecarregadas pelo trabalho silencioso e não remunerado do cuidado. Com informações da Agência Brasil


