Dores menstruais impõem barreiras silenciosas ao desempenho escolar e expõem desigualdades de gênero e raça nas salas de aula
O ambiente escolar brasileiro enfrenta um desafio de saúde pública e pedagógica que afeta diretamente o rendimento de milhares de estudantes. Um levantamento inédito realizado pelo Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info revelou que a menstruação e os sintomas associados a ela são fatores determinantes para o absenteísmo nas escolas. De acordo com a pesquisa, divulgada no Dia Internacional da Dignidade Menstrual (28 de maio), cerca de 37,1% das estudantes dos ensinos fundamental e médio faltam às aulas todos os meses devido a dores causadas pelo ciclo menstrual.
A sondagem, realizada em fevereiro, ouviu 2.551 pessoas em todas as regiões do país, incluindo 770 estudantes que menstruam, 303 docentes e 181 gestores de instituições públicas e privadas. O relatório aponta que seis em cada dez alunas sofrem com cólicas de intensidade moderada a forte, necessitando de intervenção medicamentosa e vendo suas rotinas de aprendizado severamente prejudicadas.
Cólicas lideram as causas de afastamento e acendem alerta para a defasagem escolar
A manifestação clínica mais recorrente e incapacitante apontada pelas estudantes é a cólica, citada por 57,7% das entrevistadas como o principal motivo para a suspensão temporária das atividades escolares.
O levantamento detalha ainda outros sintomas físicos e emocionais que contribuem para o quadro de afastamento:
Cansaço extremo e dores pelo corpo (30,1%)
Dores de cabeça frequentes (28%)
Desconforto estomacal ou dor de barriga (20,1%)
Sentimento de vergonha e receio de vazamentos (19,3%)
Ausência de banheiros adequados ou insumos de higiene (8,2%)
Em média, o impacto desses sintomas resulta na perda de aproximadamente dois dias letivos por mês. Especialistas do Instituto Alana alertam que tratar essas ausências como meros problemas individuais e inevitáveis perpetua uma desvantagem crônica no aprendizado das jovens. A organização defende a necessidade de transformar o debate em uma pauta coletiva, sugerindo a criação de protocolos institucionais de faltas justificadas e treinamento especializado para o corpo docente, visando mitigar o constrangimento e formalizar os registros dessas ocorrências.
Recorte racial evidencia que estudantes negras sofrem maior impacto educacional
O estudo evidenciou disparidades profundas quando analisado o perfil étnico-racial das estudantes. No que diz respeito à frequência das ausências, as alunas negras perdem até 1,5 vez mais dias de aula por mês do que as alunas brancas. Os dados apontam que 14,5% das jovens negras se ausentam de dois a cinco dias mensalmente por motivos menstruais, enquanto o índice de faltas nessa mesma janela temporal cai para 9,6% entre as estudantes brancas.
Curiosamente, a percepção e a autodeclaração da intensidade da dor mostram um cenário invertido: 37,5% das meninas brancas classificam suas cólicas como fortes, contra 25,9% das jovens negras. Adicionalmente, 16% das estudantes negras afirmam não sentir cólica alguma, o dobro do registrado entre as brancas (8,5%).
A coordenação da pesquisa pondera que o indicador de dor severa é subestimado entre a população negra devido a um processo cultural de naturalização do sofrimento. Meninas negras são frequentemente ensinadas a suportar o desconforto sem buscar assistência médica ou manifestar queixas. Diante disso, há uma recomendação expressa para que os profissionais da saúde e da educação superem o viés histórico e equivocado de que corpos negros possuem maior resiliência biológica à dor, estruturando redes de acolhimento mais atentas nas escolas.
Precariedade de infraestrutura no Norte e Centro-Oeste e a menarca precoce
As assimetrias regionais também se mostraram evidentes no levantamento, especialmente no que tange ao acesso a banheiros e produtos básicos de higiene. A vulnerabilidade de infraestrutura e a pobreza menstrual são barreiras críticas na região Centro-Oeste, onde 30,2% das estudantes apontam a falta de insumos como motivo de ausência, e na região Norte, que registra 18,9% pelo mesmo fator.
Iniciativas civis tentam preencher essas lacunas, como o Projeto Contra a Pobreza Menstrual na Vila Planalto, em Brasília, idealizado pela estudante Ana Clara Maimoni. A mobilização voluntária arrecadou cerca de 1 mil absorventes, garantindo o abastecimento de uma escola pública local por seis meses, além de promover palestras informativas sobre o tema para combater os tabus que cercam o assunto.
Outro dado relevante do estudo associa o agravamento das dores à ocorrência cada vez mais precoce da menarca (primeira menstruação) no país. No plano nacional, 65,2% das meninas têm seu primeiro ciclo até os 11 anos, e 36,5% até os 10 anos. A precocidade é mais acentuada nas regiões Nordeste e Sul. O cruzamento de dados revela que 43% das alunas que menstruaram aos 10 anos sofrem com cólicas fortes, índice que cai para 27% entre as que iniciaram o ciclo aos 11 ou 12 anos. O Instituto Alana sinaliza a urgência de antecipar as diretrizes de educação menstrual para as séries iniciais do ensino fundamental.
Impacto na rotina das educadoras e o distanciamento dos estudantes homens
O problema do absenteísmo por motivos menstruais não poupa o corpo funcional das instituições de ensino. Entre as gestoras escolares entrevistadas, 28,3% declararam sofrer com cólicas fortes e 16,9% já precisaram faltar ao trabalho por este motivo. No corpo docente, 15,8% das professoras relatam dores intensas e 12,1% ausentaram-se pelo menos uma vez no último ano devido aos sintomas do ciclo. A menor taxa de faltas entre as adultas, em comparação com as alunas, é atribuída ao maior acesso a tratamentos médicos e à pressão pela manutenção do emprego na vida adulta.
Por fim, a pesquisa mensurou o nível de conscientização dos estudantes do sexo masculino sobre a temática, evidenciando um distanciamento significativo. Cerca de 36,8% dos meninos declararam não pensar sobre o assunto, uma proporção quase duas vezes maior que a das meninas (19,7%). Além disso, apenas 23,7% dos jovens do sexo masculino reconhecem que a menstruação pode atrapalhar o desempenho escolar ou esportivo das colegas, enquanto 41,2% das alunas têm clareza desse impacto.
A naturalização e o silenciamento das dores na juventude trazem consequências de longo prazo, incluindo o atraso no diagnóstico de patologias ginecológicas sérias, como a endometriose — doença inflamatória que afeta uma em cada dez mulheres e que pode demorar até 12 anos para ser identificada. Trazer os meninos para o debate e investir em infraestrutura nas escolas são apontados como passos fundamentais para garantir o direito à aprendizagem e promover a equidade de gênero. Com informações da Agência Brasil

