Engenharia social motiva 40% das fraudes financeiras no Brasil
As táticas baseadas em engenharia social representam 40% das suspeitas de golpes financeiros contabilizados no território nacional. Os procedimentos adotados pelos criminosos envolvem a criação de centrais telefônicas falsas, a personificação de funcionários bancários e a simulação de operações policiais para persuadir o público a entregar dados confidenciais ou efetuar transferências.
Levantamento conduzido pela Quod, empresa de tecnologia de dados focada no setor de crédito, indica que os primeiros seis meses de 2026 acumularam mais de 9 milhões de indícios de fraude, computando casos sob investigação e confirmados. O número reflete uma alta de 10,26% frente ao segundo semestre de 2025, sendo a engenharia social responsável por mais de 3,6 milhões dessas ocorrências.
A pesquisa revela ainda que os telefones celulares figuraram como a principal ferramenta utilizada nas abordagens, estando presentes em 78% dos episódios, enquanto o Pix respondeu por 85% das movimentações financeiras ilícitas.
Sofisticação das abordagens criminosas
A engenharia social atua explorando a boa-fé e as reações emotivas dos alvos, em vez de recorrer à invasão direta dos sistemas de proteção dos bancos. Para forçar deliberações precipitadas, os autores dos golpes constroem cenários de urgência, medo ou falsa autoridade.
Na modalidade da falsa central de atendimento, o infrator relata uma suposta transação irregular e orienta a vítima a executar passos para resguardar o saldo bancário. Nas simulações de ação policial, o golpista emprega o pretexto de autoridade para amedrontar o interlocutor e exigir repasses econômicos.
As investidas combinam chamadas telefônicas, mensagens via WhatsApp, SMS e e-mails ao longo de dias ou semanas antes da solicitação de valores. O uso da inteligência artificial elevou o nível de convencimento das abordagens, permitindo a reprodução de vozes, imagens e a confecção de documentos adulterados.
O diretor de Tecnologia da Certta, plataforma de verificação inteligente contra fraudes, José Oliveira, pondera que a engenharia social atinge um campo distinto das barreiras tecnológicas tradicionais. Ele esclarece que enquanto a proteção do sistema busca combater fraudes em documentos e identidades, a engenharia social foca em manipular o discernimento humano.
Uso de tecnologia na segurança
Mecanismos inéditos de combate às fraudes entraram em operação em 2026. A Resolução 501 do Banco Central expandiu a troca de dados sobre indícios de irregularidades entre os estabelecimentos financeiros, ao passo que o Registro Unificado de Fraudes (Rufra) passou a centralizar as informações para mapear comportamentos e subsidiar ações de prevenção.
As instituições bancárias também empregam inteligência artificial e biometria comportamental para checar aspectos como o aparelho utilizado, o horário da transação, a localização e o histórico do cliente.
Apesar dos investimentos crescentes em IA, os golpes fundamentados na manipulação psicológica mantêm trajetória de alta. De acordo com Oliveira, as instituições precisam utilizar os recursos tecnológicos para identificar padrões suspeitos, antecipar riscos e ajustar a proteção preventivamente antes da ocorrência de prejuízos.
Escassez de debate sobre prevenção
Uma sondagem elaborada pela Certta em parceria com a Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados demonstra que apenas 11% das menções em redes sociais sobre golpes digitais abordam formas de prevenção. Oliveira observa que as discussões públicas focam na busca por apoio após a consumação do dano financeiro, demonstrando que a população ainda confunde segurança cibernética com ações antifraude.
O diretor de Produtos e Dados da Quod, Danilo Coelho, ressalta que a principal defesa do consumidor consiste em somar tecnologia a uma postura cautelosa, desconfiando de solicitações urgentes, uma vez que a grande maioria das ocorrências envolve o uso de smartphones.
Recomendações para prevenção de golpes
As orientações oficiais para evitar prejuízos incluem as seguintes condutas:
Manter o ceticismo diante de mensagens ou ligações que exijam ações imediatas;
Acessar o aplicativo oficial do banco para verificar a situação da conta corrente;
Desligar a ligação e contatar a instituição financeira por meio dos canais oficiais de atendimento;
Desconfiar de relatos que apontem o envolvimento de gerentes bancários em irregularidades;
Preservar senhas e códigos de segurança, sem repassá-los a terceiros;
Checar os dados do favorecido e o valor antes de concluir transferências pelo Pix;
Ignorar exigências de transferências sob o pretexto de investigações policiais;
Evitar o acesso a links suspeitos recebidos por canais de mensagem;
Recusar a cessão da conta bancária para transações de terceiros;
Manter ativada a verificação em duas etapas nas contas digitais.
Perfil das vítimas
O estudo da Quod aponta que jovens com idade entre 18 e 34 anos constituem 49,06% das vítimas de fraudes. Além disso, pessoas com renda mensal de até dois salários mínimos somam 58% dos afetados.
Ao todo, 3,1 milhões de pessoas sofreram com fraudes no primeiro semestre de 2026, sendo que cerca de 799 mil foram lesadas duas ou mais vezes.
O cenário reforça que a contenção dos golpes depende tanto da tecnologia quanto do discernimento do usuário em identificar manobras de persuasão. Danilo Coelho recomenda não tomar decisões financeiras sob pressão durante o horário de trabalho, momento em que a distração facilita a ação dos golpistas, além de alertar para os riscos legais do empréstimo de contas bancárias, conduta que pode caracterizar participação no esquema de “contas laranja”.
A Quod atua como datatech especializada em inteligência de dados, criando soluções tecnológicas para auxiliar empresas e bancos em análises de crédito e prevenção a fraudes. A Certta opera no segmento de verificação inteligente, unificando processos de checagem de identidade e documentos para conferir maior segurança às transações. Com informações da Agência Brasil.


