Saúde mental após perda gestacional exige atenção de profissionais

Criada em uma família numerosa na capital amazonense, Kalyane Ribeiro, de 32 anos, enfrentou a interrupção involuntária da gravidez dentro das primeiras 20 semanas de gestação, após acumular um ano e meio de tentativas para engravidar.

Ela relata que vivenciar esse episódio gera uma sensação de isolamento profundo, criando um ambiente de difícil compreensão para quem está de fora e tenta mensurar essa vivência.

Alertas da Febrasgo no Setembro Amarelo
O cuidado voltado ao equilíbrio psíquico das mulheres após o término precoce de uma gravidez ainda sofre desatenção, segundo a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). A entidade aproveita o período do Setembro Amarelo, mês voltado à conscientização sobre a prevenção ao suicídio no país, para dar visibilidade ao assunto.

A própria Kalyane aponta que a interrupção da gestação costuma ser minimizada no meio familiar, social e até por equipes médicas, que frequentemente oferecem conselhos sobre novas tentativas em vez de acolher o luto pela perda de um filho.

Luto e reações emocionais esperadas
De acordo com o obstetra Romulo Negrini, vice-presidente da Comissão Nacional Especializada em Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Febrasgo, o encerramento abrupto da gestação é um evento doloroso que demanda assistência qualificada.

O médico explica que a situação pode desencadear melancolia profunda, sentimento de desamparo, culpa, perturbações no sono, ansiedade e desinteresse por atividades diárias, independentemente do tempo de gravidez. Ele enfatiza que essas reações são normais e não caracterizam necessariamente um quadro psiquiátrico.

Por sua vez, o obstetra Eduardo Felix Martins Santana, que atua na comissão da Febrasgo e leciona na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na pós-graduação do Hospital Israelita Albert Einstein, informa que entre 15% e 20% das gestações são interrompidas. Ele defende que a mulher precisa de suporte durante essa fase.

A psiquiatra Andréa Cristina Galastri, docente no Instituto de Educação Médica (Idomed), ressalta que as oscilações hormonais do período afetam diretamente o estado emocional. Essas alterações duram cerca de 15 dias, gerando um efeito semelhante ao da tensão pré-menstrual em grau elevado, somado ao impacto emocional da perda.

Sinais de complicação do quadro psíquico
Galastri alerta para o risco de agravamento caso os sintomas persistam e a mulher passe a manifestar sintomas depressivos, ansiedade intensa, sensação de fracasso ou pensamentos de inutilidade em relação à vida.

A perda de funcionalidade diária, a falta de apetite, a insônia constante e o choro ininterrupto por mais de duas semanas ou um mês sinalizam a necessidade de intervenção terapêutica.

A médica reforça que o sofrimento diante da perda é uma resposta humana natural, contudo a paralisação das rotinas indica complicações. Quando o luto atinge o patamar patológico ou desencadeia depressão, indica-se o tratamento combinado de psicoterapia e suporte farmacológico para equilibrar a bioquímica cerebral.

Conduta recomendada aos profissionais médicos
O médico Eduardo Santana sustenta que a abordagem inicial deve focar em manter a paciente cercada de cuidados, envolvendo equipes de saúde, parentes e amigos ao longo das fases de aceitação, negação, raiva e tristeza.

O especialista ressalta a necessidade de proatividade por parte dos médicos, entidades reguladoras e associações da categoria. Ele lembra que a Febrasgo mantém uma comissão dedicada ao tema, embora haja o desafio de difundir essas orientações por todo o país.

Santana adverte que a medicina precisa agir preventivamente, sem aguardar que a paciente retorne ao consultório em estágio depressivo avançado.

Redes de apoio e acolhimento coletivo
Atualmente aos 34 anos, residindo em Campinas (SP) com o esposo e atuando no setor de marketing, Kalyane reconstruiu suas forças buscando auxílio profissional e interagindo com mulheres que vivenciaram histórias semelhantes.

A ausência de espaços tradicionais para conversas abertas motivou a criação de uma comunidade virtual idealizada por ela nas redes sociais, canal que passou a receber relatos de mulheres de diferentes idades — desde adolescentes até pessoas que passaram pela perda gestacional há décadas.

A partir desse intercâmbio de relatos, nasceu a obra escrita “Ainda me Sinto Mãe”, título que também nomeia sua página na internet, onde compartilha textos fundamentados em suas vivências e nas narrativas recolhidas.

Locais de atendimento e suporte emocional
Pessoas que enfrentam sofrimento emocional intenso ou ideação suicida devem procurar ajuda junto a pessoas próximas e serviços estruturados de saúde.

O Ministério da Saúde orienta a busca por diálogo confidencial e o uso da rede pública de atendimento. Os locais disponíveis para acolhimento incluem:

Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e Unidades Básicas de Saúde (como Postos e Centros de Saúde da Família);
Unidades de Pronto Atendimento (UPA 24H), Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192), Prontos-Socorros e Hospitais;
Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188.

O CVV oferece suporte emocional e prevenção ao suicídio de forma gratuita, confidencial e voluntária, funcionando 24 horas por dia por telefone, correio eletrônico, chat e chamada de voz. Com informações da Agência Brasil.

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