Quase 80% dos motociclistas de aplicativos não têm previdência
Em todo o país, aproximadamente 405 mil profissionais atuam no transporte de passageiros e na entrega de refeições e produtos por meio de motocicletas vinculadas a aplicativos. Desse contingente, somente 79 mil mantêm contribuições previdenciárias ativas, o que representa uma fatia de 19,4% — equivalente a um em cada cinco trabalhadores.
O indicador contrasta com a média geral do setor privado nacional, na qual a proteção previdenciária alcança 62,4% dos ocupados. Ao considerar o total de condutores de moto no Brasil, somando vinculados e não vinculados a plataformas, a taxa de cobertura situa-se em 31%.
O recolhimento regular à previdência assegura aos profissionais direitos fundamentais, como auxílio por incapacidade temporária, pensão por morte e aposentadoria.
Os apontamentos constam em um levantamento temático focado no trabalho intermediado por plataformas digitais, integrante da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, apresentada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 4 de setembro. Os dados se referem a apurações realizadas ao longo de 2025 para dimensionar essa categoria no mercado nacional.
Baixa proteção e expansão da categoria
O pesquisador responsável pelo estudo, Gustavo Geaquinto Fontes, adverte para o descompasso entre o baixo índice de adesão à previdência e os riscos cotidianos inerentes à profissão, uma vez que tais condutores vivenciam rotineiramente a exposição a acidentes de trânsito.
A amostragem demonstra uma expansão acelerada desse segmento. Entre os anos de 2024 e 2025, o número de motociclistas de aplicativos cresceu 15,4%. Na comparação com 2022, marco inicial do estudo em que foram apurados 211 mil profissionais, o contingente praticamente dobrou ao atingir os 405 mil em 2025.
O IBGE ressalta que o levantamento possui caráter experimental e está em fase de aprimoramento, não tendo havido coleta de campo no ano de 2023.
Ganhos e jornada dos entregadores
Em termos financeiros, a remuneração média mensal obtida pelos motociclistas de aplicativo ficou em R$ 2.221, valor equivalente ao saldo efetivamente retirado pelos trabalhadores após os abatimentos com despesas operacionais, como combustível.
A jornada semanal dessa categoria alcançou 44,9 horas, enquanto os condutores de motocicletas não atrelados a aplicativos registraram média de 41,1 horas por semana.
O ganho por hora trabalhada entre os plataformizados situou-se em R$ 11,40, superando em 12,9% a média calculada para os não plataformizados, que foi de R$ 10,10.
Panorama dos motoristas de aplicativo
O levantamento da Pnad Contínua também mapeou a situação dos motoristas de transporte de passageiros por aplicativo, que somavam 905 mil pessoas em 2025, marcando uma elevação de 9,8% em relação a 2024. Em um período de três anos, o aumento foi de 26%, considerando que em 2022 o grupo totalizava 718 mil ocupados.
No tocante à proteção social, apenas 25,5% desses condutores mantinham recolhimento previdenciário — proporção bem inferior aos 43,8% observados no conjunto total de motoristas do país.
Ao contrário dos motociclistas, os motoristas de app tiveram rendimento por hora menor do que seus pares não vinculados a plataformas. Em 2025, enquanto os motoristas de app atuavam 45,9 horas por semana com rendimento de R$ 14,40 por hora, os profissionais não plataformizados cumpriam 40,4 horas semanais e recebiam R$ 16,00 por hora.
Ao fim do mês, a remuneração líquida média dos condutores de aplicativo atingiu R$ 2.873, quantia 2,4% superior à calculada para os não plataformizados.
Questionamentos das empresas do setor
Diante do panorama apresentado pelo órgão público, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), entidade que representa empresas do setor de tecnologia e serviços, manifestou-se por meio de nota oficial. Embora tenha reconhecido a relevância dos levantamentos sobre o trabalho via plataformas, a entidade apontou que o estudo do IBGE apresenta fragilidades e limitações metodológicas para mapear com precisão o segmento.
A associação citou inconsistências nos dados, ressaltando que, embora o relatório indique que menos de 10% dos cadastrados exercem a atividade como ocupação secundária, 17% das pessoas que apontaram os aplicativos como trabalho principal declararam que o motivo primário da escolha é a complementação de renda.
Com base em pesquisas conduzidas pelo Instituto Datafolha e pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) em momentos distintos, a Amobitec defendeu que os critérios aplicados pelo IBGE não captam adequadamente a realidade dos rendimentos auferidos.
A instituição colocou-se à disposição para colaborar na revisão metodológica da pesquisa e defendeu a criação de uma regulamentação equilibrada, apta a garantir proteção social aos motoristas e entregadores sem comprometer a flexibilidade do modelo nem a pluralidade dos negócios.
Integram o quadro de associados da Amobitec as empresas 99, Alibaba, Amazon, Buser, iFood, Flixbus, Lalamove, Shein, Uber e Zé Delivery. Com informações da Agência Brasil.


