Retrato da água na Mata Atlântica revela estagnação e falta de melhora na qualidade dos rios
A saúde dos cursos d’água que cortam o bioma mais habitado do Brasil permanece em estado crítico. O novo relatório “Retrato da Qualidade da Água nos Rios da Mata Atlântica”, divulgado pela Fundação SOS Mata Atlântica, aponta que a recuperação dos rios está estagnada em níveis preocupantes. Com base em 1.209 análises realizadas ao longo de 2025 em 128 rios de 14 estados, o estudo confirma que a poluição constante impede que as águas atinjam padrões de excelência, colocando em risco o abastecimento e a biodiversidade.
Diagnóstico aponta predominância de águas regulares e ruins
Os números coletados em 162 pontos de monitoramento desenham um cenário de alerta. Apenas 3,1% dos pontos analisados apresentaram qualidade considerada “boa”, enquanto a grande maioria (78,4%) foi classificada como “regular”. O dado mais grave é que 18,5% dos pontos variam entre “ruim” e “péssimo”, níveis onde a vida aquática é severamente prejudicada e o contato humano torna-se um risco à saúde pública. Pelo segundo ano consecutivo, nenhum trecho de rio atingiu a classificação “ótima”.
Na comparação direta com o ciclo de 2024, houve um retrocesso visível: o número de pontos com qualidade “boa” caiu de nove para apenas três. Para Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da fundação, essa predominância do padrão regular indica que os rios brasileiros vivem sob uma pressão poluidora permanente, sem fôlego para se recuperarem naturalmente.
Saneamento básico é o principal gargalo para a despoluição
O relatório é enfático ao apontar o culpado pela degradação hídrica: a ausência de coleta e tratamento de esgoto doméstico. Embora o Novo Marco Legal do Saneamento estipule a universalização dos serviços até 2033, a realidade caminha em um ritmo muito mais lento do que a lei exige. Atualmente, cerca de metade dos brasileiros ainda não possui acesso ao básico, o que resulta no despejo contínuo de detritos orgânicos diretamente nos mananciais.
Essa carência de infraestrutura cria um descompasso institucional. Segundo especialistas da SOS Mata Atlântica, a estagnação da qualidade da água é o reflexo direto de uma gestão que ainda não priorizou o saneamento como política de Estado integrada, tratando o acesso à água limpa mais como um serviço comercial do que como um direito fundamental.
Degradação ambiental e clima agravam a insegurança hídrica
Além do esgoto, a destruição das matas ciliares — as florestas que margeiam os rios — compromete a capacidade de filtragem natural dos poluentes. Malu Ribeiro, diretora de políticas públicas da fundação, alerta que tentativas de flexibilizar o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica fragilizam a segurança hídrica do país. Sem a proteção vegetal, os rios perdem a proteção contra sedimentos e ficam mais vulneráveis aos extremos climáticos.
Períodos de seca severa reduzem a capacidade do rio de diluir a sujeira, enquanto chuvas torrenciais carregam mais poluição das cidades para o leito das águas. O relatório conclui que tratar a preservação da natureza como um obstáculo ao desenvolvimento é um erro estratégico, pois a floresta em pé é a única garantia de que haverá água potável disponível para as futuras gerações. Com informações da Agência Brasil

