Desigualdade social dita o ritmo do crescimento de crianças indígenas e nordestinas no Brasil
O desenvolvimento físico das crianças brasileiras não depende apenas da genética, mas reflete diretamente o mapa das desigualdades socioeconômicas do país. Um estudo abrangente, realizado pelo Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fiocruz Bahia (Cidacs), revela que a vulnerabilidade social está encurtando a estatura média de crianças indígenas e de diversas localidades do Nordeste.
A pesquisa aponta que, até os 9 anos de idade, esses grupos apresentam uma altura média inferior à de outras regiões brasileiras e abaixo dos parâmetros recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O cenário é resultado de uma combinação de fatores críticos: falhas na assistência à saúde, nutrição precária, alta incidência de enfermidades e condições ambientais e socioeconômicas desfavoráveis.
O paradoxo da vulnerabilidade e o avanço do sobrepeso
Ao contrário do que o senso comum sugere, a situação de vulnerabilidade não protege os pequenos do excesso de peso. O estudo identificou que cerca de 30% das crianças brasileiras estão com sobrepeso ou muito próximas disso. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a subnutrição deu lugar a uma preocupante prevalência de obesidade.
Enquanto a estatura média nacional consegue, de modo geral, acompanhar os padrões internacionais, o peso tem disparado em certas regiões. A análise aponta que o crescimento linear (altura) segue adequado na média do país, mas o ganho de massa corporal está ultrapassando o que é considerado saudável. O Sul do Brasil lidera esse ranking negativo, com 32,6% das crianças apresentando sobrepeso e 14,4% classificadas como obesas.
Ultraprocessados e cuidados desde o berço
Para o pesquisador Gustavo Velasquez, líder do estudo, a “invasão” dos alimentos ultraprocessados é um dos principais vilões desse aumento de peso. Além da dieta, as condições de nascimento e os cuidados nos primeiros anos de vida são determinantes. O especialista reforça que o acompanhamento pré-natal e pós-natal na atenção primária é essencial para garantir que a criança tenha um desenvolvimento pleno e saudável.
Abaixo, os índices regionais de excesso de peso identificados na pesquisa:
Sul: 32,6% de sobrepeso e 14,4% de obesidade.
Centro-Oeste: 28,1% de sobrepeso e 13,9% de obesidade.
Sudeste: 26,6% de sobrepeso e 11,7% de obesidade.
Nordeste: 24,0% de sobrepeso e 10,3% de obesidade.
Norte: 20,0% de sobrepeso e 7,3% de obesidade.
Brasil no cenário internacional
Publicado na prestigiada revista JAMA Network em janeiro de 2026, o estudo despertou a atenção de especialistas estrangeiros. Embora a obesidade infantil no Brasil seja considerada em nível intermediário se comparada a vizinhos como Chile, Peru e Argentina, a experiência brasileira serve de alerta para o mundo. O país mostra que, mesmo sem enfrentar problemas graves de subnutrição em termos de peso, a má qualidade da alimentação e a desigualdade social continuam a comprometer o futuro das novas gerações. Com informações da Agência Brasil

