Apostadores de bets de apostas online das comunidades mais pobres buscam ajuda no SUS após sonho virar pesadelo
Dívidas elevadas e perdas de patrimônio motivam procura por apoio público
As recordações de períodos conturbados misturam-se como em um pesadelo na mente de Kaio*, de 42 anos. Ele se recorda de uma madrugada silenciosa no mês de julho, quando o telefone celular recebeu notificações que promoviam oportunidades de apostas. Inicialmente, o sentimento foi de euforia, mas a reação mudou rapidamente após amargar prejuízos em sequência. Primeiro, perdeu R$ 1 mil; em seguida, R$ 2 mil; e, em questão de minutos, a perda alcançou R$ 5 mil. A quantia era proveniente de um empréstimo concedido por um amigo para que ele quitasse pendências com agiotas resultantes de apostas anteriores em plataformas digitais.
Naquele momento, nenhum familiar estava acordado na residência simples situada em uma área periférica do Distrito Federal, onde sua esposa e seus dois filhos, de 10 e 4 anos, dormiam. Ao caminhar pelo imóvel, Kaio sentiu um forte impacto emocional diante da gravidade da situação. Ao amanhecer, a preocupação com o montante devido se sobrepôs ao convívio com os familiares, levando-o a considerar novos palpites no intuito de mitigar o prejuízo acumulado.
Quando o filho mais velho pediu para ser levado à casa da avó, de onde seguiria para a escola, o pai apenas sinalizou positivamente com a cabeça, sem interromper o manuseio do celular. Sem que percebesse, mais de três horas se passaram até que notasse que o garoto já não se encontrava mais no local, evidenciando uma perda completa da percepção do tempo.
Perda de controle e consequências na rotina familiar
A alteração na noção temporal constitui um dos sinais característicos da ludopatia, distúrbio definido pelo descontrole dos impulsos voltados aos jogos. Ao refletir sobre o histórico da condição, Kaio recorda que o contato inicial com as apostas ocorreu em momentos de descanso quando atuava como motorista de uma prefeitura no interior de Goiás. O agravamento do quadro deu-se após o surgimento de quadros depressivos decorrentes do falecimento de seu pai por câncer.
Em virtude dos compromissos financeiros decorrentes dos jogos, ele comercializou seu veículo financiado, além de móveis e a própria residência familiar, avisando a esposa apenas dois dias antes da necessidade de desocupar o imóvel. A situação culminou no término do casamento, na perda da moradia e no desgaste de sua dignidade. Atualmente, ele reside em um dormitório alugado, onde dorme sobre papéis de papelão no chão.
Os valores obtidos com a alienação do automóvel e do imóvel não supriram o endividamento, que ultrapassou a quantia de R$ 200 mil. A conjuntura exigiu o desligamento do seu emprego para a utilização da verba rescisória no pagamento de dívidas adicionais. Ao reconhecer a necessidade de auxílio especializado, ele passou a frequentar um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) no Distrito Federal, participando de grupos terapêuticos.
O processo de recuperação e os impactos sociais do vício
Com o acompanhamento no Caps, o paciente passou a fazer uso diário de três medicações, destacando que a convivência nos grupos auxilia na redução do sentimento de isolamento. Em sua avaliação, o transtorno com apostas apresentou maior severidade do que o histórico anterior de dependência de álcool e outras substâncias.
Atualmente, ele atua no setor de reposição de suprimentos em uma instituição de ensino no interior goiano, em um processo de reconstrução pessoal com a expectativa de obter o perdão dos filhos no futuro.
Sob a perspectiva médica, a psiquiatra Katia Branco, supervisora do Grupo Pro-Amiti do Hospital das Clínicas de São Paulo — núcleo dedicado ao estudo e tratamento dos transtornos do controle do impulso —, ressalta que cidadãos pertencentes às classes C e D figuram como os mais afetados. Este segmento, ao almejar a melhoria da condição socioeconômica, é exposto a conteúdos desinformativos e campanhas publicitárias enganosas.
A avaliação de especialistas aponta que indivíduos em situação de vulnerabilidade, moradores de áreas periféricas e com rendimento próximo ao salário mínimo, tornam-se alvos frequentes de anúncios que sugerem a falsa premissa de que os jogos operam como fonte de complementação de renda. O cenário eleva os riscos, visto que as perdas financeiras comprometem diretamente o sustento das famílias e a saúde mental dos envolvidos, intensificando quadros de ansiedade, depressão, endividamento progressivo e ideação suicida.
Acesso simplificado e a atuação das equipes de saúde
A psicóloga Claudia Feres, integrante da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, esclarece que a ludopatia se caracteriza como uma enfermidade associada ao descontrole impulsivo, potencializada pelo acesso facilitado à tecnologia. O uso de dispositivos móveis permite a interação com jogos eletrônicos a qualquer momento e sem a necessidade de deslocamento.
A abordagem terapêutica nas unidades de saúde adota a estratégia de redução de danos, incentivando o distanciamento gradual dos aparelhos celulares. As estruturas de atendimento dispõem de profissionais de diversas áreas para acolher os pacientes em diferentes fases do transtorno. Entre os sinais que demandam atenção de familiares estão o isolamento social, a alteração no padrão de sono e episódios de irritabilidade.
No âmbito dos CAPS, o acolhimento estende-se aos familiares para o desenvolvimento de estratégias conjuntas. A profissional pondera que a atribuição de responsabilidade exclusiva ao indivíduo desconsidera a complexidade social do problema, exigindo soluções estruturadas por meio de políticas públicas coletivas.
Relatos de pacientes e desafios no tratamento do transtorno
Entre os usuários que buscam apoio nas unidades públicas está João*, de 32 anos. Paraplégico em decorrência de uma agressão física, ele frequenta semanalmente as sessões terapêuticas no Caps acompanhado de sua mãe, deslocando-se por 30 quilômetros até o local de atendimento. A familiar expressa preocupação com o direcionamento dos recursos da casa para as apostas online, enquanto o jovem relata dificuldades em controlar o comportamento.
A médica Katia Branco reitera que a participação da família é determinante para a adesão às consultas e a manutenção dos esquemas terapêuticos prescritos.
Por outro lado, há casos em que o paciente demonstra resistência ao acompanhamento especializado. O pedreiro autônomo Ricardo*, de 26 anos, morador da comunidade de Sol Nascente, relata praticar apostas desde 2018 e estima prejuízos superiores a R$ 100 mil. A motivação inicial decorreu da expectativa de obter renda extra e entretenimento.
Pai de uma criança de dois anos, o jovem enfrentou o fim de seu relacionamento amoroso em razão das dívidas acumuladas. Ele relata episódios de abstinência que alteram o padrão do sono durante a madrugada. Embora não utilize o termo vício por não ter vendido bens móveis, ele adota como estratégia desligar e afastar o telefone celular no período noturno. Atualmente trabalhando de forma autônoma com reformas, o jovem almeja ingressar no curso de Engenharia.
Posicionamento do setor sobre regras e prevenção
Em manifestação enviada à Agência Brasil, o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), entidade que afirma representar 75% do mercado nacional de apostas, declarou reconhecer a relevância do debate focado na prevenção do jogo problemático e na salvaguarda de pessoas vulneráveis. A entidade enfatizou que a atividade deve ser compreendida estritamente como alternativa de lazer, sem ser encarada como fonte de rendimento ou meio de subsistência.
O instituto argumenta que, a partir da estruturação da regulamentação federal no início do ano anterior, as empresas devidamente autorizadas passaram a atuar sob normativas e fiscalizações específicas. O grupo ressalta que o enfrentamento do transtorno requer ações integradas entre órgãos públicos, entidades reguladoras, empresas e a sociedade.
Em relação ao material publicitário, a organização sustenta que as campanhas estão sujeitas a regras severas, que incluem a proibição de peças voltadas ao público infantojuvenil e o descabimento de mensagens que associem as apostas ao enriquecimento fácil. A entidade informou manter interlocução contínua com o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) e destacou o combate às plataformas que operam sem autorização legal.
As pessoas ouvidas pela reportagem da Agência Brasil tiveram suas identidades preservadas com nomes fictícios devido ao contexto de vulnerabilidade envolvido. Com informações da Agência Brasil.


