Perigo dentro de casa: moradia é o cenário de 70% das agressões contra mulheres no Brasil
A residência, local que deveria simbolizar segurança, tornou-se o principal palco da violência de gênero no país. Dados consolidados do Ligue 180, divulgados neste mês de abril, revelam um cenário alarmante: em 2025, aproximadamente 70% das violações denunciadas ocorreram em ambiente doméstico. O detalhamento mostra que 40,76% das agressões aconteceram na casa da própria vítima e 28,58% na residência compartilhada com o agressor.
O balanço anual da Central de Atendimento à Mulher registrou mais de 1,08 milhão de atendimentos, o que equivale a quase 3 mil chamados diários — um salto de 45% em relação ao ano anterior. Desse total, as denúncias formais somaram 155.111 casos, com uma média de 425 registros por dia.
Rotina de horror e o perfil da violência
O relatório expõe a gravidade da reincidência: quase 32% das mulheres que denunciaram sofrem agressões diariamente. Além disso, mais de 20% das vítimas relataram conviver com o ciclo de violência há mais de um ano. No campo das violações, uma única denúncia pode esconder múltiplos abusos. Das 155,1 mil queixas, o sistema identificou 679.058 tipos de violações distintas.
A violência psicológica é a mais frequente, presente em quase metade dos registros (49,9%), seguida pela violência física (15,3%). O balanço também aponta números preocupantes de violência patrimonial, sexual e até casos de sequestro e cárcere privado. Cerca de 75,9% de todos os episódios reportados estão amparados pela Lei Maria da Penha.
O rosto das vítimas e a desigualdade racial
A violência atinge as brasileiras de forma estrutural, mas o fator raça evidencia uma vulnerabilidade ainda maior entre mulheres negras (pretas e pardas), que representam 43,16% das denúncias. As mulheres brancas somam 32,54%, enquanto indígenas e amarelas aparecem com percentuais menores, embora especialistas alertem para a alta subnotificação nesses grupos.
Em termos de idade, o pico de vulnerabilidade concentra-se entre os 26 e 44 anos. Esse grupo responde por 37,19% das queixas, com uma incidência ligeiramente maior na faixa dos 40 aos 44 anos.
Violência vicária e a nova legislação
Um dado que chamou a atenção das autoridades foi o crescimento da violência vicária — quando o agressor utiliza filhos ou parentes para causar sofrimento à mulher. Em 2025, foram mais de 7 mil denúncias dessa natureza. No início de 2026, a prática apresentou um salto, representando 7,77% das queixas no primeiro trimestre.
Como resposta, em abril de 2026, foi sancionada a Lei 15.384, que classifica o “vicaricídio” como crime hediondo dentro do contexto de violência doméstica, prevendo penas de até 40 anos de prisão para os agressores que utilizam terceiros como instrumento de tortura psicológica contra a mulher.
Distribuição regional e como buscar ajuda
O Sudeste lidera o ranking nacional com 47,4% das denúncias, tendo São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais como os estados com maiores volumes absolutos. No entanto, o Distrito Federal chama a atenção por ocupar a quarta posição no ranking individual de denúncias, apesar de sua população reduzida. O Nordeste também apresentou alta na utilização do serviço, impulsionado por Bahia e Pernambuco.
O Ligue 180 segue como o principal canal de socorro, funcionando 24 horas por dia, gratuitamente. Além do telefone, é possível denunciar pelo WhatsApp (61) 9610-0180 ou procurar delegacias especializadas (Deam) e unidades da Polícia Militar (190) em casos de emergência imediata. Com informações da Agência Brasil


