Pobreza impacta desenvolvimento motor de bebês logo no primeiro semestre de vida

A desigualdade social no Brasil deixa marcas profundas antes mesmo de a criança dar os primeiros passos. Um estudo pioneiro da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), publicado na revista científica Acta Psychologica, revela que bebês vivendo em situação de pobreza já apresentam atrasos significativos no desenvolvimento motor aos seis meses de idade. De acordo com a pesquisa, esses pequenos demonstram um repertório de movimentos mais limitado, demorando mais para realizar tarefas fundamentais como agarrar objetos, virar o corpo ou sentar sem apoio.

A fisioterapeuta Caroline Fioroni Ribeiro da Silva, autora do estudo, explica que a escassez de recursos e de estímulos cria uma barreira física. “Eles variam menos os movimentos; às vezes, sequer conseguem alcançar um brinquedo”, pontua. O alerta é grave, pois a literatura médica sugere que esses atrasos precoces podem evoluir para dificuldades escolares, déficit de atenção (TDAH) e transtornos de coordenação no futuro.

O chão como espaço de liberdade e o “Tummy Time”
A investigação constatou que, em lares mais pobres, os bebês tendem a passar muito tempo confinados em carrinhos ou espaços restritos, muitas vezes devido à falta de área física nas residências ou ao “caos” de ambientes com muitos adultos. Para reverter esse quadro, os especialistas defendem o uso do chão como o local mais seguro e eficaz para o aprendizado.

Uma das práticas mais recomendadas é o tummy time (tempo de barriga para baixo). Sob supervisão, essa posição é essencial para fortalecer a musculatura do pescoço, ombros e costas, preparando o lactente para rolar, engatinhar e, eventualmente, ficar de pé. Quando o bebê tem liberdade para explorar uma superfície firme, ele desenvolve a coordenação necessária para interagir com o mundo ao seu redor.

Estímulos simples superam a falta de brinquedos caros
A boa notícia trazida pela UFSCar é que a reversão desses atrasos pode ser surpreendentemente rápida. Aos oito meses, muitos bebês avaliados já haviam igualado seu desenvolvimento ao de crianças de classes mais altas. O segredo não estava em tecnologia ou itens de luxo, mas no engajamento materno com práticas acessíveis:

Interação sonora: Cantar e conversar com o bebê permite que ele observe movimentos faciais e aprenda sons.

Texturas e sons: Brincar com papel de presente ou papel amassado estimula a curiosidade pelo barulho e pelo tato.

Sucata criativa: Chocalhos feitos com garrafas PET e grãos de arroz ou feijão são excelentes para a motricidade fina.

Leitura: Folhear livros e mostrar imagens fortalece o vínculo e a percepção visual.

A importância do apoio profissional e familiar
O estudo destacou que mães solo ou adolescentes, muitas vezes sobrecarregadas e sem orientação, encontram mais dificuldade em estimular seus filhos. Nesses cenários, a presença de um segundo cuidador ou de visitas técnicas de agentes de saúde e fisioterapeutas torna-se determinante. Como a erradicação da pobreza é um desafio estrutural de longo prazo, a assistência direta às famílias surge como a solução imediata para garantir que o potencial biológico dessas crianças não seja podado pela condição financeira.

Estima-se que 400 milhões de crianças vivam em situação de pobreza globalmente, segundo dados recentes do Unicef. Iniciativas de orientação parental mostram que, mesmo em contextos de privação severa, o afeto e o estímulo correto podem mudar o destino do desenvolvimento infantil. Com informações da Agência Brasil

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