Juros altos superam impacto de gastos e se tornam o principal motor da dívida pública
O debate sobre a saúde financeira do Brasil ganha novas nuances com o questionamento de uma das teses mais difundidas no jornalismo econômico: a de que o gasto com serviços públicos é o grande vilão do endividamento. Economistas ouvidos pela Agência Brasil alertam que a verdadeira pressão sobre os cofres da União vem da fatura dos juros, que consumiu mais de R$ 1 trilhão em apenas 12 meses, beneficiando o setor financeiro em detrimento de investimentos produtivos.
O peso dos juros nominais no crescimento da dívida
Diferente do senso comum que aponta os investimentos em saúde, educação e folha de pagamento como responsáveis pelo rombo, os dados técnicos indicam outro caminho. Em 2026, a Dívida Bruta do Governo Central atingiu 80,1% do PIB (R$ 10,4 trilhões), um aumento de 1,4 ponto percentual. Segundo o Banco Central, a maior parte dessa elevação (2,4 p.p.) deveu-se à incorporação de juros nominais, e não ao déficit primário.
Para a professora Juliane Furno, doutora em economia pela Unicamp e docente da UFF, existe uma inversão de valores no debate público.
“É uma hipocrisia apontar que os juros altos respondem à elevação da dívida, porque são os juros que a causam. Se você decompor os componentes, verá que o gasto com servidores e serviços à população é o que menos impacta o endividamento”, afirma Furno.
O Estado não é uma família: a crítica ao modelo financeiro
A comparação clássica entre o orçamento público e as contas de uma residência é duramente criticada pela professora Maria Mello de Malta, da UFRJ. Segundo ela, a lógica é distinta, pois o Estado emite sua própria moeda e define sua taxa de juros. Ela avalia que a manutenção de taxas elevadas — as segundas maiores do mundo — funciona como uma “plataforma financeira” para beneficiar poucos, enquanto sacrifica a qualidade de vida de 210 milhões de brasileiros.
A economista argumenta que o foco excessivo no corte de despesas primárias, a chamada “disciplina fiscal” exigida pelo Banco Central, ignora o efeito multiplicador do gasto público. Reduzir investimentos estatais pode, na verdade, piorar a dívida, já que esfria a economia, aumenta o desemprego e, consequentemente, derruba a arrecadação de impostos.
O combate à inflação pelo lado da oferta
Outro ponto de divergência entre especialistas é a estratégia de combate à inflação. Atualmente, o Banco Central utiliza a taxa Selic para frear a demanda. No entanto, a professora Maria Lourdes Mollo, da UnB e doutora pela Universidade de Paris, defende que o controle dos preços deveria ocorrer pelo estímulo à produção (oferta).
O problema é que os juros altos inibem o crescimento da capacidade produtiva a médio e longo prazo, tornando o combate à inflação uma medida de altíssimo custo social. “Quem paga essa conta são as pessoas que precisam de comida, moradia e saúde”, destaca Mollo.
Direitos constitucionais e o papel dos serviços públicos
As especialistas reforçam que o Estado brasileiro gasta em volume maior que alguns vizinhos devido às escolhas feitas na Constituição Federal de 1988, que optou pelo fornecimento universal de saúde (SUS) e educação. Elas alertam que as propostas de privatização e cortes drásticos não resolvem o problema do endividamento de forma estrutural, pois muitas vezes apenas transferem lucros que antes ajudariam o Estado para o setor privado.
Para este grupo de economistas, a verdadeira reforma estrutural para sanear a economia brasileira passa, obrigatoriamente, por uma redução agressiva nas taxas de juros, protegendo o gasto social que sustenta a camada mais vulnerável da população. Com informações da Agência Brasil

