Justiça começa a julgar responsáveis pela tragédia de Brumadinho após sete anos de espera

A dor que estancou no tempo para centenas de famílias mineiras ganha um novo capítulo nos tribunais. Sete anos após o colapso da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, o Poder Judiciário inicia uma fase decisiva para apurar as responsabilidades criminais pelo desastre que ceifou 272 vidas. O episódio, ocorrido em 25 de janeiro de 2019, é classificado pelos familiares das vítimas, organizados na Avabrum, como uma “tragédia-crime”, que hoje completa sete anos.

Memórias de uma tarde interrompida pela lama
Para Nayara Porto, a lembrança daquele dia está ligada ao cheiro de um pudim que ela preparava para o marido, Everton Lopes Ferreira. O doce, favorito dele, nunca foi provado. Enquanto a sobremesa assava, a notícia do rompimento chegou através de vizinhos. O desespero tomou conta quando as ligações para Everton não completavam mais.

Um colega de trabalho, que sobreviveu por pouco, confirmou o pior: o almoxarifado onde Everton trabalhava havia sido completamente varrido pela onda de rejeitos. O relato de Nayara, concedido à Rádio Nacional, ilustra o trauma de milhares que viram seus planos de vida desaparecerem sob metros de lama em poucos segundos.

Calendário judicial e possíveis condenações
A partir de 23 de fevereiro, a 2ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte dará início às audiências de instrução. O processo é longo e complexo: até maio de 2027, o tribunal ouvirá sobreviventes, testemunhas de acusação e defesa, além dos réus. Ao todo, 15 pessoas estão no banco dos réus, incluindo ex-diretores e engenheiros da mineradora Vale, além de funcionários da consultoria alemã TÜV SÜD, que atestou a estabilidade da estrutura pouco antes da queda.

Caso a juíza federal Raquel Vasconcelos Alves de Lima entenda que há provas suficientes, o caso poderá ser levado a júri popular. Esta etapa é aguardada com ansiedade por quem busca não apenas indenizações, mas a punição dos responsáveis diretos pelas decisões que levaram ao rompimento.

Falhas na fiscalização e o peso do lucro
Especialistas apontam que o caso de Brumadinho não é isolado, mas sim parte de um padrão de negligência no setor minerário brasileiro. A jornalista Cristina Serra estabelece paralelos entre Brumadinho, o desastre da Samarco em Mariana e o afundamento do solo em Maceió pela Braskem. Em todos eles, a busca por margens de lucro elevadas teria se sobreposto aos investimentos em segurança.

Além da conduta das empresas, a fragilidade dos órgãos públicos é apontada como fator determinante. A fiscalização muitas vezes se resume a análises burocráticas de documentos enviados pelas próprias mineradoras, sem vistorias técnicas presenciais que confirmem a veracidade dos dados de estabilidade.

O posicionamento das empresas envolvidas
A Vale informou que não comenta processos judiciais em curso, mas afirma que o Acordo Judicial de Reparação Integral já teve 81% de sua execução econômica realizada. A mineradora ressalta investimentos em segurança e ações socioambientais na região.

Já a TÜV SÜD, apesar de manifestar solidariedade às famílias, nega qualquer responsabilidade legal pelo evento. A multinacional alemã defende que os laudos de estabilidade emitidos na época estavam em conformidade com as normas técnicas e que a barragem apresentava condições de segurança no momento da certificação.

A Samarco, por sua vez, destacou que, com o Novo Acordo do Rio Doce assinado em 2024, assumiu a responsabilidade direta pelas indenizações e obras de reconstrução das comunidades atingidas pelo desastre de 2015.

Ato em homenagem às vítimas
Para marcar os 2.557 dias de saudade e luta, a Avabrum realiza um ato em memória das 272 vítimas neste domingo. O encontro ocorre no Letreiro de Brumadinho, reforçando que, para aqueles que ficaram, a busca por justiça é o único caminho para honrar os que se foram. Com informações da Agência Brasil

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