Apenas três regiões fornecem metade do algodão brasileiro

O Brasil figura entre os líderes globais na produção e exportação de commodities como algodão, laranja, soja, milho e carnes. Contudo, uma análise da Embrapa Territorial (SP), por meio da plataforma SITE-MLog, demonstra que essa pujança produtiva está longe de ser distribuída uniformemente, evidenciando uma alta concentração em áreas específicas do território.

A microrregião de Parecis e Alto Teles Pires, no Mato Grosso, e Barreiras, na Bahia, formaram um trio que, em 2023, foi responsável por metade de toda a produção nacional de algodão. Essa concentração extrema ilustra um padrão que se repete em diferentes culturas. A laranja, por exemplo, embora tradicionalmente centrada em São Paulo, tem um quarto de sua colheita concentrada em apenas quatro microrregiões do estado: Avaré, Bauru, Botucatu e São João da Boa Vista.

Fatores que Moldam a Concentração Agrícola
O analista André Rodrigo Farias, da Embrapa Territorial, explica que a diferença nos níveis de concentração das atividades agropecuárias é resultado de uma combinação de fatores, incluindo as características intrínsecas dos produtos e seus sistemas de produção:

1. Exigências Estruturais e Financeiras
Culturas como o algodão demandam maquinário e estruturas de processamento e beneficiamento altamente específicos e caros. Esse alto investimento a longo prazo restringe a área de produção, favorecendo a concentração nos locais com maior competitividade e know-how. O mesmo ocorre com culturas perenes como o café e o eucalipto (para celulose e papel), que exigem condições edafoclimáticas (solo e clima) muito específicas e investimentos financeiros significativos para a formação das lavouras.

2. História, Cultura e Estrutura Fundiária
No caso da produção de frangos e suínos, altamente concentrada na Região Sul (principalmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul), o fator determinante é a história de colonização e a estrutura fundiária, marcada pela agricultura familiar. O sucesso do modelo de integração via cooperativas e o conhecimento acumulado nessas cadeias impulsionam a atividade na região.

3. Flexibilidade e Expansão
A bovinocultura, por ser uma atividade que se adapta a diferentes níveis tecnológicos e foi implementada precocemente no País, é a menos concentrada. Para somar metade da produção de bovinos, é necessário contar com 56 microrregiões em todas as cinco grandes regiões do Brasil, incluindo a forte participação do Norte (Pará, Rondônia e Tocantins).

Concentração de Grãos e o Impacto na Logística
Apesar de estarem presentes em quase todos os estados, soja e milho também apresentam alta concentração no volume produtivo da área central do País. Em 2023, um quarto de todo o milho nacional veio de apenas quatro microrregiões do Centro-Oeste: Alto Teles Pires (MT), Dourados (MS), Sinop (MT) e Sudoeste de Goiás (GO). A cana-de-açúcar expandiu-se, mas seu polo de produção ainda se concentra em São Paulo e estados vizinhos (Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais).

A análise de concentração é vital para a logística. Em produções concentradas, como café e laranja, o foco é otimizar as rotas estabelecidas, que escoam principalmente pelo Porto de Santos (SP). Para produções menos concentradas, como soja e milho, há uma disputa constante entre modais de transporte (rodoviário, ferroviário e hidroviário) e opções de portos para exportação.

Segundo Farias, a análise de concentração permite que as estratégias de fomento à adoção de novas tecnologias e aumento de produtividade sejam direcionadas para as regiões que mais concentram os volumes, potencializando a eficácia das medidas.

O SITE-MLog é a ferramenta interativa e gratuita da Embrapa que organiza esses dados de dez cadeias produtivas, utilizando conceitos como as bacias logísticas para traçar o fluxo de exportação e apoiar o planejamento de infraestrutura e políticas públicas. Com informações da Assessoria de Comunicação da Embrapa

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