Vozes da periferia: moradia e segurança lideram as aspirações nas favelas brasileiras
As favelas do Brasil não são apenas aglomerados urbanos; são centros de pulsante inteligência coletiva e projetos de vida. No entanto, o abismo entre o potencial desses territórios e a negligência do poder público continua profundo. A pesquisa “Sonhos da Favela”, realizada pelo Data Favela em todas as regiões do país, revela que a dignidade básica — traduzida em teto seguro, saúde e proteção — continua sendo a maior prioridade para quem vive no coração das comunidades.
O estudo, baseado em quase 4,5 mil entrevistas, traça um perfil de resiliência. Para 2026, a reforma ou aquisição de uma casa melhor é o sonho de 31% dos moradores, seguido de perto pela necessidade de um sistema de saúde eficiente (22%) e o desejo de ver os filhos na universidade (12%).
Perfil de um Brasil jovem e negro que trabalha
Os dados do Data Favela desenham um rosto claro para a periferia: 75% dos moradores são negros (pretos e pardos) e a maioria está em idade produtiva, entre 30 e 49 anos. A força de trabalho é expressiva, mas a precariedade ainda dita o ritmo financeiro. Cerca de 60% da população sobrevive com até um salário mínimo mensal, e a informalidade atinge 34% dos trabalhadores, superando aqueles que possuem carteira assinada (30%).
Apesar das dificuldades, a educação aparece como um pilar de esperança. Embora 35% tenham completado o ensino médio, o número de moradores com curso superior e pós-graduação vem crescendo, somando 16% do total, o que reforça a tese de que a favela é um celeiro de talentos que buscam qualificação para romper barreiras socioeconômicas.
O silêncio e a desconfiança na segurança pública
Um dos pontos mais sensíveis da pesquisa diz respeito à relação entre os moradores e o Estado. Quando questionados sobre em qual instituição confiam para proteção contra a violência, a resposta majoritária é desoladora: 36% não confiam em nenhuma entidade, superando a confiança na Polícia Militar (27%) e na Polícia Civil (11%).
A presença policial nos territórios também divide opiniões e gera silêncio. Enquanto 22% se sentem mais seguros com o policiamento, 25% afirmam que a presença dos agentes não altera sua percepção de segurança e 13% admitem sentir medo e insegurança direta com as operações. Para a copresidente do Data Favela, Cléo Santana, o fato de 47% dos entrevistados desejarem apenas “ir e vir com tranquilidade” mostra que o planejamento do futuro ainda é sequestrado pelo medo da violência e pela luta pela sobrevivência.
Desafios de gênero: a luta feminina no território
A pesquisa também joga luz sobre as desigualdades internas. Sete em cada dez entrevistados apontam a violência doméstica e o feminicídio como o maior obstáculo enfrentado pelas mulheres na favela. Além da segurança física, a falta de apoio no cuidado com os filhos (37%) impede que muitas mulheres avancem profissionalmente.
Para enfrentar essa realidade, os moradores apontam urgências claras para as políticas públicas voltadas ao público feminino:
Empregabilidade: Programas de inserção no mercado de trabalho (62%).
Conscientização: Campanhas educativas contra o machismo (44%).
Proteção: Delegacias e serviços de atendimento 24 horas (43%).
Infraestrutura e lazer: o desejo de mudança
Para 2026, as demandas territoriais focam na base da cidadania. O saneamento básico é a mudança mais aguardada (26%), superando educação e saúde. Além disso, o lazer é visto como uma carência grave: 67% dos moradores avaliam as opções de esporte e cultura em suas comunidades como ruins, muito ruins ou apenas regulares.
Mapear esses dados, segundo os organizadores, é um ato de reparação histórica. Trata-se de enxergar a favela não como uma estatística de problemas, mas como um território de inovação e empreendedorismo que exige, urgentemente, ser ouvido pelo restante do país. Com informações da Agência Brasil


