Barreira dos juros: oito em cada dez indústrias enfrentam entraves para acessar crédito no Brasil

O setor industrial brasileiro atravessa um período de forte estrangulamento financeiro. Uma pesquisa detalhada, apresentada nesta semana pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em parceria com a Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), revela que a política monetária atual tornou-se o principal obstáculo para o crescimento das fábricas. Segundo a sondagem, 80% dos empresários que buscaram financiamentos de curto e médio prazo apontam as taxas de juros como a barreira intransponível para o fechamento de novos contratos.

O peso da Selic nos investimentos de longo prazo
O cenário de dificuldades é ainda mais crítico quando se analisa o crédito voltado para investimentos estruturais, com prazos superiores a cinco anos. Para 71% dos industriais, os juros elevados inviabilizam projetos de expansão, seguidos pela exigência rigorosa de garantias reais (31%) — como a entrega de imóveis e maquinários — e pela escassez de linhas de crédito que se moldem às necessidades específicas da produção.

Com a taxa básica de juros (Selic) estacionada em 15% ao ano, os juros reais giram em torno de 10%. Na visão de Maria Virgínia Colusso, analista da CNI, esse patamar é extremamente restritivo. O custo elevado do dinheiro não apenas encarece a operação diária, mas atua como um desestímulo direto à inovação e à modernização tecnológica do parque industrial nacional.

Desistência e reprovação no balcão dos bancos
O desânimo com as condições de mercado fez com que mais da metade das indústrias (54%) sequer buscasse crédito de longo prazo nos últimos seis meses. Entre aquelas que se arriscaram a procurar fôlego financeiro, o índice de insucesso é alarmante: quase um terço das empresas que tentaram financiamentos de longo prazo saíram de mãos vazias.

As médias empresas são as mais afetadas por esse “apagão” de crédito. Nesse segmento, 43% das que buscaram recursos de longo prazo tiveram seus pedidos negados. Entre as pequenas empresas, a taxa de reprovação foi de 37%, enquanto as grandes indústrias registraram 27% de insucesso. No crédito de curto prazo, a percepção de piora nas condições de contratação foi relatada por 35% dos entrevistados.

Risco sacado e a percepção de piora no cenário
A pesquisa também investigou a adesão a modalidades alternativas, como o “risco sacado” — operação onde fornecedores antecipam recebíveis via bancos. O interesse, contudo, permanece baixo: apenas 13% das indústrias utilizaram essa ferramenta no último ano, e a maioria (54%) não demonstra intenção de aderir à modalidade.

A Sondagem Especial ouviu 1.789 empresas de diferentes portes, consolidando a visão de que o ambiente para negócios em 2026 permanece sob forte pressão. Com apenas 12% dos empresários relatando alguma melhora nas condições de financiamento de longo prazo, o setor industrial sinaliza que, sem um alívio nas taxas de juros, o ritmo de crescimento e a competitividade do Brasil podem ser seriamente comprometidos. Com informações da Agência Brasil

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