Ilusão de controle e o ciclo da violência: os desafios da gestão policial no Brasil
A segurança pública brasileira enfrenta um impasse histórico que ultrapassa a simples vontade política. Em uma análise contundente sobre o cenário atual, a professora e pesquisadora Carolina Grillo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), alerta que o controle dos governadores sobre suas forças policiais é muito mais frágil do que se imagina. Segundo a especialista, as instituições de segurança possuem grupos de poder internos e uma autonomia tamanha que tornam o comando pleno uma tarefa quase impossível para o Poder Executivo.
Este diagnóstico surge em um momento crítico. Relatórios recentes da organização Human Rights Watch apontam que a utilização da força letal como estratégia central de segurança tem gerado o efeito oposto ao desejado: mais violência e insegurança. Entre janeiro e novembro de 2025, as polícias brasileiras foram responsáveis pela morte de 5.920 pessoas, com destaque para a Operação Contenção, no Rio de Janeiro, que resultou em 122 óbitos — o episódio mais letal da história do país.

O perigoso efeito de contágio do modelo fluminense
Um dos pontos mais preocupantes destacados por Grillo é a “exportação” do modus operandi do Rio de Janeiro para estados como São Paulo e Bahia. Historicamente, São Paulo não apresentava problemas crônicos de controle territorial armado por facções, mas a recente adoção de operações de alta letalidade tem provocado uma reação inédita de resistência armada em certas comunidades.
Para a pesquisadora, essa repetição de modelos ineficientes ocorre por um “empobrecimento do debate público”. Embora as polícias saibam que operações espetaculosas não desmantelam o crime organizado, elas oferecem um retorno eleitoral imediato, criando na população uma falsa sensação de que “algo está sendo feito”, enquanto investigações silenciosas e eficazes de inteligência, como as da Polícia Federal e do Gaeco, recebem menos holofote.
A promessa da impunidade como combustível da violência
A autonomia dos agentes na ponta, conhecida como discricionariedade, é potencializada quando governadores chancelam mortes antes mesmo de qualquer perícia. Grillo afirma que a garantia tácita de que não haverá punição estimula a brutalidade. O ciclo de impunidade é alimentado por um sistema de investigação viciado:
Inquéritos frágeis: A Polícia Civil muitas vezes não realiza perícias locais detalhadas em confrontos envolvendo a Polícia Militar.
Narrativa única: A versão dos policiais envolvidos costuma ser a única prova considerada.
Arquivamento em massa: Sem evidências robustas, o Ministério Público tende a pedir o arquivamento e o Judiciário acata, encerrando o caso sem esclarecimentos.
O custo humano dentro das corporações
A política de confronto não faz vítimas apenas entre a população civil. O relatório da Human Rights Watch traz números alarmantes sobre a saúde e a vida dos próprios agentes: em 2025, 185 policiais foram mortos em serviço ou folga, e 131 agentes tiraram a própria vida.
Este cenário revela que o modelo atual é desgastante para todas as pontas da pirâmide social. Segundo Grillo, o desafio para as próximas eleições é romper o binarismo entre o “extermínio aberto” e o “endurecimento penal”. Ela argumenta que o encarceramento em massa serve apenas como recrutamento para organizações criminosas, fortalecendo os grupos que o Estado afirma combater. A alternativa, sugere a especialista, reside na produção de inteligência e na recuperação do controle institucional sobre as forças de segurança. Com informações da Agência Brasil
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