Radiografia da ciência brasileira: Capes convoca 500 mil pesquisadores para o primeiro censo da pós-graduação
Pela primeira vez em seis décadas de história institucional, a pós-graduação brasileira passará por um mapeamento estatístico minucioso. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) abriu o Censo da Pós-Graduação stricto sensu de 2025, uma iniciativa inédita que busca tirar da invisibilidade o perfil real de quem produz conhecimento no país. Com prazo de preenchimento até 26 de fevereiro, a coleta de dados já mobiliza cerca de 504 mil participantes, entre estudantes de mestrado e doutorado, docentes e pesquisadores.
O levantamento, realizado via Plataforma Sucupira, é obrigatório e individual. O objetivo central é converter esses dados em políticas públicas que combatam desigualdades regionais e promovam a equidade no ambiente acadêmico. A divulgação dos resultados finais está agendada para o dia 16 de novembro de 2026.
Diversidade e inclusão sob a lupa do governo
Um dos maiores diferenciais deste censo é a busca por recortes sociodemográficos que, até então, eram desconhecidos em detalhes técnicos. A presidente da Capes, Denise Pires de Carvalho, destaca que o governo precisa entender a composição étnico-racial e de gênero do setor para intervir com precisão.
Atualmente, embora as mulheres sejam maioria entre mestres e doutores (liderando o número de títulos de doutorado desde 2005), o corpo docente da pós-graduação permanece majoritariamente masculino. O censo investigará os motivos desse “funil”, incluindo, pela primeira vez, perguntas sobre parentalidade. A ideia é criar mecanismos de avaliação que respeitem o tempo de produção de mães e pais, garantindo que o cuidado com os filhos não se torne um impedimento para a progressão na carreira científica.
Cotas e a busca pela equidade racial
O censo também será a ferramenta para verificar a efetividade da nova Lei de Cotas (nº 14.723/2023) no topo da pirâmide educacional. A autodeclaração dos participantes permitirá saber se as políticas afirmativas estão, de fato, garantindo o ingresso e a permanência de estudantes pretos, pardos, indígenas e quilombolas.
A Capes reforça que o sistema de cotas, já consolidado na graduação, é uma etapa necessária de reparação histórica. Dados preliminares indicam que a inclusão está avançando: programas de iniciação científica, antes dominados por brancos, hoje já apresentam um número crescente de bolsistas negros e pardos recebendo premiações, provando que a excelência acadêmica caminha junto com a diversidade.
Saúde mental e novos rumos profissionais
Outro ponto sensível abordado é a saúde mental. Embora a pós-graduação apresente taxas de evasão baixíssimas — entre 4% e 10%, números bem inferiores aos mais de 40% registrados na graduação —, o ambiente é reconhecidamente estressante. O censo ajudará a identificar gatilhos de sofrimento psíquico para melhorar o acolhimento nas instituições sem comprometer a qualidade do ensino.
Além disso, a Capes sinaliza uma mudança de paradigma: o foco não é mais apenas formar doutores para a vida acadêmica. A nova estratégia incentiva a interação com o setor produtivo não acadêmico.
Estágios em empresas: Agora, bolsistas podem realizar o estágio obrigatório em ambientes empresariais e na sociedade civil.
Inovação: Acordos com a Embrapii e Finep visam levar a ciência das universidades para o desenvolvimento industrial brasileiro.
Quem deve responder ao censo?
O preenchimento do formulário eletrônico na Plataforma Sucupira é indispensável para:
Mestrandos e doutorandos matriculados;
Professores permanentes e colaboradores;
Pesquisadores em estágio pós-doutoral (que não lecionam);
Coordenadores de programas de pós-graduação.
Até o momento, a adesão é alta: cerca de 70% do público já enviou suas respostas, e mais de 150 programas já atingiram a meta de 100% de participação. Com informações da Agência Brasil


