Em Pará de Minas, 1,4 em cada 10 pacientes do SUS faltam as consultas marcadas sem aviso prévio

O absenteísmo na rede municipal de saúde de Pará de Minas — o ato de não comparecer a compromissos agendados — deixou de ser apenas um detalhe administrativo para se tornar um dos maiores obstáculos ao atendimento público. O impacto é sentido desde as Unidades Básicas de Saúde (UBS) até o atendimento especializado no Ambulatório Médico de Especialidades (AME), gerando prejuízos que afetam a saúde individual e coletiva.

O diagnóstico dos gestores sobre o “vazio” na rede
O Secretário Municipal de Saúde, Gilberto Denoziro Valadares da Silva, classifica o problema como um entrave ao planejamento e à eficiência do sistema. Ele destaca que o índice de faltas gira em torno de 14% a 15%, o que significa que quase duas em cada dez pessoas agendadas não aparecem.

“Isso impacta no aumento do tempo de demora porque a pessoa ocupa o espaço de outro que poderia ser atendido e não é atingido, aumentando o tempo de espera dos que têm que ser chamados depois,” alerta o secretário.

Divulgação/Prefeitura de Pará de Minas

Ele reforça ainda que o problema não é exclusivo do setor público: “Faz parte dos maus hábitos, não só de Pará de Minas, mas do Brasil, de modo geral… e na medicina privada o absenteísmo é um problema até maior do que no SUS”:

Gilberto Denoziro Valadares da Silva
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Alerta na Atenção Primária: 18 mil faltas em seis meses
A Atenção Primária à Saúde (APS), porta de entrada do cidadão, sofre com números expressivos. Mariana Viegas, referência técnica da área, revela que nos últimos seis meses foram registradas 18.455 faltas de diversos profissionais.

  • Sobrecarga desnecessária: “Muitas vezes esse paciente que era agendado não comparece, a demanda dele permanece porque ela não foi resolvida e ele muitas vezes vem na demanda espontânea que seria um atendimento para causas agudas”.
  • Perda de oportunidade preventiva: Mariana enfatiza que o faltoso perde a chance de controlar doenças antes que se agravem. “Aquele hipertenso que não faz o acompanhamento contínuo… normalmente ele já chega na unidade com alguma piora do quadro”.
  • Unidades críticas: Dados apontam que unidades como Walter Martins e Seringueiras possuem números de faltas muito elevados, chegando a ser compatíveis ou superiores a unidades com populações muito maiores.
Divulgação/Prefeitura de Pará de Minas

Mariana Viegas
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Conforme os dados detalhados da rede de Saúde Pública de Pará de Minas:

  • Médicos: 7.795 faltas acumuladas.
  • Psicólogos: 4.323 faltas registradas.
  • Enfermeiros: 3.316 faltas nas unidades.
  • Cirurgiões dentistas: 2.172 ausências.

Especialidades e Saúde Mental em risco
No atendimento especializado (AME), a preocupação recai sobre o custo e a raridade dos profissionais. Lírian Daniela de Souza, diretora de Atenção Especializada, ressalta que as áreas de Ortopedia, Cardiologia e Oftalmologia são as que mais sofrem com o abandono das vagas. Em fevereiro de 2026, por exemplo, a Oftalmologia registrou sozinha 102 faltas.

Divulgação/Prefeitura de Pará de Minas

“O que mais nos preocupa é que esse paciente permanece às vezes meses na fila e quando chega o momento dessa consulta ela não acontece. A saúde dele piora e ele pode inclusive sobrecarregar até a tensão terciária, UPA ou até mesmo hospital”:

Lírian Daniela de Souza
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Na Saúde Psicossocial, o cenário é igualmente preocupante. Raianne Couto, coordenadora da rede, aponta que as faltas em atendimentos psicológicos na Atenção Primária atingiram 32% entre novembro e março.

Divulgação/Prefeitura de Pará de Minas

“Não é só um horário vazio; estamos dizendo de um cuidado que deixa de acontecer. Às vezes é um quadro de ansiedade que poderia ser resolvido na unidade e em poucos atendimentos, mas gera uma sobrecarga lá no CAPS”:

Raianne Couto
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Novas regras para tentar reduzir as filas
Para combater esse cenário, a Secretaria de Saúde adotou medidas que exigem maior responsabilidade do usuário:

  1. Punição para faltas injustificadas: O paciente que falta sem avisar sai da fila e deve retornar à UBS para passar por uma nova consulta com o médico clínico para ser encaminhado novamente.
  2. Uso dobrado de vagas: “O paciente que falta na atenção secundária, ele usa 2 vagas extras, uma na atenção primária que ele vai precisar de novo e outra na atenção secundária”.
  3. Canais de comunicação: A prefeitura disponibiliza o WhatsApp (3233-5817) para cancelamentos.
  4. Benefício do aviso prévio: Se o comunicado ocorrer com 48 horas de antecedência, o paciente mantém sua posição na fila e a vaga pode ser ocupada por outra pessoa.

O secretário Gilberto Denoziro Valadares da Silva finaliza com um apelo à consciência coletiva: “Se você puder ir na consulta, ótimo; se não puder, não deixe de comunicar para que a gente convoque uma outra pessoa que, se não, ela vai ficar aguardando mais o tempo”.

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