Violência contra crianças persiste e mostra descompasso entre o discurso e a prática familiar
A aplicação de agressões verbais e físicas contra o público infantojuvenil continua fortemente enraizada nos hábitos culturais do país, gerando um contraste intrigante na sociedade. Embora a expressiva maioria dos cidadãos defenda a conversa como o caminho ideal para educar, as punições corporais e os insultos ainda fazem parte do cotidiano de muitos lares. Os dados constam em um levantamento estatístico desenvolvido pela Quaest, sob encomenda do Instituto Infinis.
Embora episódios de extrema gravidade — a exemplo do homem filmado desferindo chutes contra a própria filha de apenas 3 anos em uma via pública no município de Francisco Beltrão, no Paraná — representem desvios fora da curva, os indicadores gerais preocupam. Apenas no primeiro quadrimestre de 2026, os canais oficiais do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania contabilizaram 115.814 notificações de desrespeito aos direitos de menores de idade. O volume chama a atenção em um país onde residem atualmente cerca de 55 milhões de habitantes com menos de 18 anos.
O paradoxo entre o discurso educativo e a conduta familiar
O estudo aponta que 90% dos participantes da pesquisa reconhecem o diálogo como a ferramenta mais adequada para orientar as atitudes das crianças. Contudo, a prática revela um cenário bem diferente: 62% das pessoas ouvidas confessaram que já gritaram com os pequenos, 49% admitiram a aplicação de tapas e 27% assumiram que já desferiram golpes utilizando algum tipo de objeto. A sondagem atual não se aprofundou nas origens dessa contradição, deixando de fora variáveis como o desgaste psicológico diário ou a interferência de entorpecentes e bebidas.
De acordo com Márcia Kalvon, diretora executiva do Instituto Infinis, mapear essas visões coletivas é indispensável para interromper a transmissão da violência entre as diferentes gerações, além de servir de norte para a criação de mecanismos governamentais preventivos. Os analistas envolvidos no projeto reforçam que os abusos tendem a se repetir no tempo, já que indivíduos que enfrentaram castigos na infância possuem maior propensão a replicar as mesmas agressões no futuro.
A iniciativa corresponde à segunda etapa do monitoramento voltado às posturas e visões ligadas à infância e aos maus-trataros contra o segmento jovem. Na apuração pioneira, realizada no ano de 2023, a incoerência no comportamento da população já havia ficado evidente. Naquela oportunidade, 93% dos entrevistados exaltavam o valor da conversa, mas 66% reconheciam o uso de gritos, 52% aceitavam a aplicação de palmadas e 38% faziam uso de instrumentos para golpear os filhos. Apesar da persistência dos atos violentos, os especialistas identificaram um recuo nos episódios envolvendo o uso de objetos, classificados como de maior potencial lesivo.
O silêncio das testemunhas e a tolerância ao trabalho precoce
A pesquisa ouviu 2.202 cidadãos maiores de idade ao longo dos meses de maio e junho de 2026 e mapeou a reação social diante de episódios de violência explícita. O resultado revelou que 62% das testemunhas preferem adotar uma postura de omissão e não intervir. Desse grupo que opta pelo silêncio, a metade justifica que o ocorrido se trata de um assunto estritamente particular da família, não cabendo intromissão. A outra parcela revelou medo de sofrer represálias por parte de quem agride, receio fundamentado em situações reais, como o próprio caso ocorrido no Paraná, onde o agressor intimidou uma pessoa que tentou interceder pela menor.
Outro ponto de destaque diz respeito à visão sobre as atividades laborais na infância. Mesmo com 93% dos participantes concordando que a dedicação escolar deve ser a prioridade absoluta nessa fase da vida, 61% consideram aceitável que crianças trabalhem. No caso de adolescentes, o suporte ao emprego é ainda maior: 88% apoiam a inserção caso seja do interesse do jovem e 71% validam a jornada laboral quando essa for uma determinação vinda dos pais.
O desconhecimento legal também se mostrou expressivo no diagnóstico, já que 71% dos colaboradores da pesquisa não souberam indicar nenhuma legislação voltada ao amparo de menores, ignorando inclusive debates de grande visibilidade recente, como as discussões em torno do ECA Digital. O detalhamento completo com todos os indicadores do relatório será apresentado oficialmente em setembro, por ocasião do 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância, evento coordenado pela equipe do Instituto Infinis. Com informações da Agência Brasil

