Revolução no diagnóstico: Brasil inicia transição para testes moleculares contra o câncer de colo do útero

A Fundação do Câncer apresentou nesta quinta-feira (8), marcando as ações do Janeiro Verde, a nova edição do seu Guia Prático de Prevenção. O documento traz uma mudança histórica para a saúde feminina no Brasil: a substituição paulatina do tradicional Papanicolau pelo teste molecular de DNA-HPV no Sistema Único de Saúde (SUS). A atualização técnica visa alinhar o país às melhores práticas globais de combate à doença, que é quase inteiramente evitável.

O fim da era da citologia e a precisão do DNA
A grande inovação reside na metodologia de detecção. Enquanto o Papanicolau (método citológico) busca identificar alterações nas células que já foram infectadas, o novo teste molecular rastreia diretamente a presença do material genético do vírus HPV de alto risco. Segundo o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, diretor da Fundação do Câncer, essa mudança permite identificar a ameaça muito antes de qualquer lesão surgir, garantindo uma eficácia preventória superior.

Além da maior precisão, o teste de DNA-HPV oferece um benefício prático para as mulheres: a periodicidade. Devido à sua alta sensibilidade e segurança, mulheres com resultado negativo podem repetir o exame a cada cinco anos, em vez do intervalo trienal exigido pelo Papanicolau. O público-alvo no Brasil permanece o mesmo, focado na faixa etária entre 25 e 64 anos.

Implementação gradual e metas da OMS
O processo de modernização do SUS começou a ser desenhado em 2024 e entrou em fase de execução em setembro do ano passado. Atualmente, municípios de 12 estados já iniciaram a transição, e o Ministério da Saúde está em diálogo para expandir a rede para outras 12 unidades da federação. Nos locais onde o teste molecular ainda não está disponível, o rastreamento via citologia continua sendo a norma vigente.

Essa estratégia faz parte do compromisso brasileiro com a meta de eliminação do câncer de colo do útero proposta pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para 2030. Os pilares desse plano são:

Vacinação: imunizar 90% das meninas até 15 anos.

Rastreamento: alcançar 70% das mulheres com o novo teste molecular.

Tratamento: assegurar que 90% das diagnosticadas recebam cuidados imediatos.

Vacinação como barreira primária e resgate de adolescentes
A prevenção começa cedo. O SUS oferece a vacina quadrivalente em dose única para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos. Para compensar as quedas nas coberturas vacinais ocorridas nos últimos anos, o Programa Nacional de Imunização (PNI) realiza, até o primeiro semestre de 2026, um esforço de resgate para jovens entre 15 e 19 anos que ainda não foram imunizados.

A vacina também está disponível gratuitamente para grupos específicos até os 45 anos, como pessoas vivendo com HIV/Aids, transplantados e vítimas de violência sexual. A médica Flávia Miranda Corrêa, consultora da Fundação do Câncer, reforça que a vacinação precoce gera uma imunidade mais robusta, impedindo a infecção inicial e, consequentemente, o desenvolvimento do câncer no futuro.

Fluxo de atendimento e segurança diagnóstica
O novo protocolo é rigoroso: mulheres que testarem positivo para os tipos mais agressivos (HPV 16 e 18) serão encaminhadas imediatamente para colposcopia. Já aquelas com outros tipos de HPV oncogênico passarão por uma análise complementar no mesmo material coletado. Se o exame automatizado der negativo, a segurança de que não haverá desenvolvimento de câncer nos cinco anos seguintes chega a 99%, aproximando o Brasil de referências mundiais como a Austrália. Com informações da Agência Brasil

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