Especialistas apontam negligência climática e falhas no planejamento urbano em Juiz de Fora
A tragédia que assolou a Zona da Mata mineira, resultando em dezenas de mortes e milhares de desabrigados, é vista por especialistas como uma consequência direta da omissão diante das mudanças climáticas. Para os acadêmicos ouvidos pela Agência Brasil, o desastre em cidades como Juiz de Fora e Ubá não foi apenas um evento natural extremo, mas o resultado de anos de negacionismo ambiental e políticas públicas de prevenção insuficientes.
O geógrafo Miguel Felippe, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), ressalta que eventos extremos de chuva tendem a se tornar a nova regra. Segundo ele, a pauta ambiental tem sido tratada por lideranças políticas como um obstáculo à economia, o que impede um planejamento urbano que proteja a população.
Capital imobiliário e a segregação em áreas de risco
Um dos pontos centrais da análise de Felippe é como a dinâmica urbana empurra as camadas mais pobres da sociedade para o perigo. O professor argumenta que o mercado imobiliário dita o valor das terras, deixando para as populações de baixa renda apenas os terrenos em encostas e várzeas, que possuem menor valor econômico e maior suscetibilidade a desastres.
Essa lógica explica por que os bairros mais pobres de Juiz de Fora foram os mais atingidos. Com menor capacidade financeira para reconstruir suas vidas, essas famílias enfrentam um ciclo de vulnerabilidade que o poder público não consegue interromper, especialmente quando há redução de investimentos em Defesa Civil. Dados do Portal da Transparência indicam que as verbas estaduais para essa área em Minas Gerais sofreram cortes drásticos nos últimos anos, passando de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões.
O fator oceânico e a geografia do perigo
A posição geográfica de Juiz de Fora, cercada por montanhas, a torna naturalmente vulnerável, mas o aquecimento global potencializou esse risco. Marcelo Seluchi, coordenador do Cemaden, explica que o Oceano Atlântico está com temperaturas até 3°C acima da média, o que aumenta a evaporação e, consequentemente, o volume de chuva que chega ao continente.
Como a cidade foi construída avançando do Vale do Rio Paraibuna para as encostas, ela se torna um alvo fácil tanto para inundações quanto para deslizamentos. Para Seluchi, a adaptação é urgente e deve incluir o treinamento rigoroso da população para que as pessoas saibam como agir sozinhas em casos de alertas geológicos, sem depender exclusivamente da chegada imediata de equipes de resgate.
Engenharia e resiliência para o futuro das cidades
Para minimizar os danos nas áreas de várzea, o professor Matheus Martins, da UFRJ, sugere soluções inspiradas em modelos internacionais, como os pôlderes holandeses. Essa técnica utiliza muros e sistemas de bombas para controlar o nível da água em áreas inundáveis. Além disso, ele defende a criação de parques públicos e pavimentação permeável para ajudar o solo a absorver a água.
Martins destaca que em áreas florestais 90% da chuva se infiltra no solo, enquanto em áreas urbanas impermeabilizadas esse mesmo percentual escorre pela superfície, causando alagamentos instantâneos. Atualmente, a prefeitura de Juiz de Fora possui projetos de macrodrenagem, como o plano “Juiz de Fora + 100”, mas a execução depende da liberação efetiva de recursos federais do Novo PAC, que ainda caminham de forma lenta. Com informações da Agência Brasil


