Fim da era dos manicômios em Minas Gerais marca o encerramento das atividades do antigo hospital-colônia de Barbacena
Em uma solenidade repleta de simbolismo, o município de Barbacena pôs fim a um dos períodos mais sombrios da assistência à saúde mental no Brasil. A transferência definitiva dos últimos 14 cidadãos remanescentes que ainda viviam sob regime de internação de longa permanência para um lar terapêutico local sela o término do modelo de isolamento na histórica instituição de acolhimento. A partir desta nova realidade, a unidade hospitalar da cidade concentrará suas operações estritamente no tratamento de episódios de crises agudas e em consultas ambulatoriais, operando em total conformidade com as diretrizes e os critérios técnicos estabelecidos pela Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).
O evento oficial reuniu diversas lideranças do cenário público e da área da saúde, incluindo o chefe da Secretaria de Estado de Saúde, Fábio Baccheretti, o prefeito do município, Carlos Augusto Soares do Nascimento, e a dirigente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), Renata Dias, além de antigos internos e membros da comunidade regional.
O ponto alto da cerimônia ocorreu com o trancamento simbólico, por meio de um cadeado, das portas do antigo Pavilhão Antônio Carlos. O gesto representou visualmente o compromisso público do governo mineiro com a preservação da memória histórica, a defesa irrestrita dos direitos humanos e o fomento às práticas de tratamento psiquiátrico baseadas na liberdade. Gestores locais enfatizaram o longo percurso de 25 anos percorrido desde a promulgação da Lei da Reforma Psiquiátrica, destacando o esforço coletivo necessário para ressignificar a trajetória da instituição e garantir que os cidadãos atendidos possam desfrutar de um cotidiano digno e humanizado com o suporte de profissionais especializados.
As trajetórias humanas por trás das estatísticas de confinamento
A mudança para o Serviço Residencial Terapêutico vai muito além de uma simples realocação física; representa a superação definitiva de uma metodologia baseada no distanciamento social e na quebra de laços afetivos com o mundo exterior. Os 14 moradores finais carregam em suas trajetórias um tempo médio de internação contínua de 49 anos. Com uma faixa etária média que atinge os 73 anos atualmente, três desses indivíduos foram inseridos no sistema de confinamento quando possuíam menos de 15 anos de idade.
No decorrer do século passado, as internações ocorriam em um contexto social em que o estigma, o preconceito, o desamparo por parte dos núcleos familiares e até mesmo manifestações de sofrimento psíquico de baixa intensidade serviam de pretexto para o isolamento permanente de pessoas consideradas fora dos padrões sociais aceitáveis.
Embora uma parcela significativa dessas memórias careça de documentação oficial precisa, os indicadores estatísticos disponíveis expõem a magnitude do drama humanitário ocorrido no local. No período compreendido entre os anos de 1942 e 2020, estima-se que mais de 40 mil cidadãos cruzaram os portões da instituição, registrando-se o óbito de aproximadamente 24 mil pessoas. Em seus períodos de maior superlotação, a estrutura chegou a manter confinados de forma simultânea cerca de 3.500 pacientes.

Da colônia de isolamento ao resgate da memória no museu
O complexo iniciou suas atividades no ano de 1903 sob a denominação de Sanatório de Barbacena, tendo como propósito original o tratamento de pacientes diagnosticados com tuberculose. Contudo, a partir do ano de 1911, a estrutura foi reconfigurada como Hospital-Colônia, estabelecendo-se como a pioneira entre as instituições públicas voltadas à psiquiatria no estado de Minas Gerais. Nas décadas seguintes, o espaço acabou se tornando o principal ícone do sistema manicomial no país, caracterizado pelo abandono institucional e pela degradação das condições de vida dos internos.
As condições precárias mantidas atrás dos muros da colônia ganharam ampla notoriedade nacional após a divulgação de reportagens de grande impacto na imprensa, acompanhadas por registros fotográficos e documentários contundentes. Atualmente, esse percurso histórico encontra-se documentado e acessível ao público nas instalações do Museu da Loucura, um espaço dedicado a manter viva a lembrança dos fatos ocorridos para assegurar que violações semelhantes jamais voltem a se repetir na sociedade.
Consolidação do tratamento em liberdade e expansão da rede
O processo voltado para a desinstitucionalização dos usuários assistidos no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB) vem sendo executado de forma gradativa pela Secretaria de Estado de Saúde desde 2019. Entre os anos de 2019 e 2025, um contingente de 68 residentes recebeu alta médica para dar continuidade aos seus respectivos tratamentos inseridos na comunidade. O período de maior movimentação ocorreu no ano de 2022, quando 27 transferências foram concretizadas para unidades de residências terapêuticas instaladas nos municípios vizinhos de Carandaí, Antônio Carlos e Ibertioga.
Durante este mesmo ciclo de reestruturação da assistência mental, o governo de Minas Gerais direcionou aportes financeiros expressivos superiores a R$ 718 milhões para o setor, com uma aplicação específica de R$ 100 milhões executada no decorrer de 2025. A infraestrutura de atendimento do estado conta atualmente com 453 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em pleno funcionamento, dos quais 65 prestam assistência voltada exclusivamente ao público composto por crianças e adolescentes. Com informações da Agência Minas


