A trama que fascina: como o enredo das escolas de samba reconstrói a identidade do Brasil

Mais do que um simples roteiro para o desfile, o enredo é a alma que guia o espetáculo na Sapucaí. Etimologicamente ligado à ideia de “enredar” ou prender em uma rede, o termo define a capacidade das escolas de samba de capturar a atenção de multidões através de uma narrativa. Em uma nova edição do livro Pra tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos, o historiador Luiz Antonio Simas e o jornalista Fábio Fabato exploram como essa ferramenta se tornou uma das formas mais poderosas de contar a história “não oficial” do país.

A evolução da narrativa: do cortejo ao samba-enredo
Embora o carnaval brasileiro utilize temas centrais há mais de um século, as escolas de samba herdaram essa tradição dos antigos ranchos carnavalescos, como o Ameno Resedá. No entanto, o grande salto ocorreu em 1939, quando a Portela apresentou o desfile “Teste ao Samba”. Pela primeira vez, houve uma coesão absoluta entre o que era visto nas alegorias e o que era cantado no samba.

Segundo Luiz Antonio Simas, o samba-enredo é um gênero musical único por ser épico em vez de lírico. Ele nasce “sob encomenda” para servir a uma história exemplar, funcionando como o músculo que movimenta o esqueleto do enredo. Sem essa espinha dorsal, o ritmo da bateria e a harmonia da comunidade perderiam sua direção primordial.

Bastidores e decisões: quem escolhe o que o povo vai cantar?
A definição de um enredo é um processo complexo que costuma ocorrer entre os meses de abril e maio. Em muitas ocasiões, a escolha é pragmática e financeira: presidentes podem optar por temas patrocinados para capitalizar a agremiação após os gastos do carnaval anterior. Contudo, há casos em que o carnavalesco possui “capital moral” e força criativa para impor sua própria visão artística.

Fábio Fabato destaca que figuras como o carnavalesco Leandro Vieira trouxeram a figura do “enredista” — um pesquisador acadêmico que ajuda a dar densidade ao tema. Um enredo bem escolhido tem o poder de “contaminar” positivamente todos os outros quesitos, facilitando a composição de um samba forte e inspirando fantasias e alegorias mais impactantes.

Pedagogia das massas: a história que os livros didáticos ignoraram
Um dos papéis mais fundamentais das escolas de samba é a sua função pedagógica. Durante décadas, os desfiles iluminaram personagens e episódios que a história oficial, muitas vezes elitista e eurocêntrica, preferiu apagar. Enquanto as salas de aula ainda silenciavam sobre certas lideranças, o carnaval já celebrava figuras como Zumbi dos Palmares, Xica da Silva e Teresa de Benguela.

“As escolas de samba operam na dimensão da contranarrativa”, explica Simas. O desfile da Mangueira de 2019, História para ninar gente grande, é o exemplo máximo dessa revolução contemporânea, ao propor uma revisão crítica dos heróis nacionais. Ao unir música, dança, escultura e pintura, o carnaval ensina através do afeto e da celebração, transformando a avenida em uma sala de aula a céu aberto para milhões de pessoas. Com informações da Agência Brasil

PUBLICIDADE
[wp_bannerize_pro id="valenoticias"]
Don`t copy text!