Consumo de drogas no Brasil triplica entre mulheres e acende alerta para saúde pública

O cenário do consumo de substâncias ilícitas no Brasil passou por transformações profundas na última década, revelando um mercado mais complexo e novos grupos de vulnerabilidade. De acordo com a atualização do Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), realizado pela Unifesp, quase 20% da população brasileira (18,7%) já experimentou algum tipo de droga ilícita ao menos uma vez. Embora os homens ainda apresentem a maior prevalência histórica (23,9%), é entre o público feminino e adolescente que o crescimento mais preocupa as autoridades de saúde.

O estudo, realizado entre 2022 e 2023 com mais de 16 mil participantes, aponta que o uso de drogas entre mulheres saltou de 3% em 2012 para 10,6% em 2023. Mais alarmante ainda é a situação entre menores de idade: pela primeira vez na série histórica, o número de meninas que experimentaram entorpecentes superou o de meninos, sinalizando uma mudança drástica no perfil do usuário jovem.

Avanço da cannabis e dependência
A cannabis (que engloba maconha, haxixe e skank) continua sendo a substância mais utilizada no país. O levantamento indica que cerca de 28 milhões de brasileiros com 14 anos ou mais já usaram a droga na vida, o dobro do registrado em 2012. Desse total, estima-se que 2 milhões de pessoas preencham os critérios clínicos para dependência, o que representa um em cada três usuários.

O padrão de consumo também revela riscos agudos. Entre os jovens de 14 a 17 anos, o índice de uso entre meninas subiu de 2,1% para 7,9%, enquanto entre os meninos houve uma queda. Outro dado crítico é a busca por atendimento médico: enquanto 3% dos usuários gerais já precisaram de serviços de emergência devido ao consumo, esse número sobe para 7,4% quando o recorte é feito exclusivamente com adolescentes, evidenciando uma maior fragilidade a crises agudas e intoxicações.

Expansão de drogas sintéticas e alucinógenos
Para além da maconha e da estabilidade nos índices de consumo de cocaína e crack, o Brasil assiste a uma expansão de substâncias sintéticas em ambientes urbanos recreativos. O uso de ecstasy, por exemplo, quase triplicou, passando de 0,76% para 2,20%. Alucinógenos e estimulantes sintéticos (ATS) também registraram altas significativas, tornando o mercado de drogas mais imprevisível e perigoso para o consumidor.

Geograficamente, o consumo está mais concentrado nas regiões Sul e Sudeste, especialmente na faixa etária entre 18 e 34 anos. Segundo os pesquisadores, embora o Brasil ocupe uma posição intermediária no ranking internacional de prevalência, o país enfrenta uma carga elevada de transtornos mentais associados ao uso, o que sobrecarrega a rede de atenção psicossocial e os serviços de urgência.

Novas estratégias de prevenção e gênero
Os responsáveis pelo estudo, desenvolvido em parceria com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad), defendem que os dados exigem uma reformulação urgente das políticas preventivas. A pesquisadora Clarice Madruga destaca que as ações de governo precisam ser mais “sensíveis a gênero”, focando na saúde mental das meninas e jovens mulheres para mitigar o sofrimento psíquico e o poliuso de substâncias.

O relatório conclui que a vigilância epidemiológica contínua é essencial para orientar os gestores públicos. O objetivo é integrar a prevenção à redução de violência e discriminação, garantindo que o sistema de proteção social esteja preparado para lidar com uma demanda crescente e cada vez mais diversificada. Com informações da Agência Brasil

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