Presidente do Senado trava tramitação da PEC que acaba com a jornada de trabalho na escala 6×1
O andamento da proposta de emenda à Constituição que visa extinguir a jornada de trabalho na escala 6×1 encontrou um obstáculo político no Senado Federal. O presidente da Casa Legislativa, Davi Alcolumbre, tem mantido a matéria sob análise exclusiva da Mesa Diretora, evitando encaminhar o texto para debate na Comissão de Constituição e Justiça.
A postura tem gerado desdobramentos diretos na articulação política. O senador Otto Alencar, que preside a CCJ, confirmou não ter recebido qualquer previsão de quando a matéria será liberada para o colegiado. Além disso, uma agenda de conversas prevista para esta semana entre ele e a presidência da Casa acabou cancelada. Reuniões com os líderes de partidos para alinhar as votações semanais também deixaram de ser convocadas, a despeito de sinalizações anteriores de que o tema seria debatido coletivamente.
A proposta em questão busca alterar as regras trabalhistas do país ao consolidar o direito a dois dias consecutivos de descanso semanal remunerado. Com isso, o limite de prestação de serviços cairia das atuais 44 horas para 40 horas semanais.
Estratégia de gerenciamento de prazos em período eleitoral
No entendimento de especialistas em ciência política, a retenção do texto reflete a cautela institucional diante das preocupações com a economia e da pressão exercida por associações empresariais contrárias à alteração do modelo de trabalho. O fato de 2026 ser um ano de eleições gerais faz com que os líderes partidários prefiram administrar o andamento do debate nos bastidores, esquivando-se de desgastes políticos imediatos sobre um tema de grande apelo popular.
Até o momento, levantamentos técnicos sobre as repercussões fiscais e financeiras da mudança divergem bastante. Existem análises que alertam para riscos inflacionários, flutuações no Produto Interno Bruto e no mercado de empregos, enquanto outras linhas de estudo minimizam os danos. Esse cenário de incertezas permite que a presidência do Senado utilize o controle da pauta como ferramenta de negociação, embora a retenção temporária não signifique o sepultamento definitivo da proposta.
Proposta alternativa da oposição avança na frente
Enquanto o texto principal oriundo da Câmara dos Deputados segue retido, uma matéria alternativa patrocinada pela bancada de oposição teve sua tramitação liberada e já foi enviada para a CCJ. O projeto concorrente preserva a atual estrutura de escalas permitidas na legislação brasileira, mas introduz e regulamenta a modalidade de contratação com base em horas efetivamente trabalhadas.
Mesmo com o entrave na pauta, senadores alinhados ao Palácio do Planalto mantêm o otimismo de votar a versão original da proposta ainda neste semestre. A meta é vencer as etapas de votação antes do início do recesso parlamentar, agendado para 18 de julho — calendário que este ano precisará concorrer com as festividades de São João e a realização da Copa do Mundo.
Durante as últimas reuniões plenárias, a cobrança pública pelo avanço da matéria foi intensa. Parlamentares da base aliada defenderam que o Senado valide o regime de 5×2 como uma medida de valorização e dignidade para a classe trabalhadora. Por outro lado, vozes da oposição criticam abertamente a proposta, sob a justificativa de que a redução de carga horária sem contrapartida elevará custos operacionais que acabarão sendo repassados nos preços finais pagos pelos consumidores. No entanto, o tema divide blocos: mesmo na oposição, há parlamentares que manifestaram apoio público à ampliação dos direitos trabalhistas.
Contraponto com piso de categorias e medidas fiscais para o campo
O gerenciamento de projetos que geram impactos financeiros tem sido o principal argumento da presidência da Casa para justificar a paralisia de certas pautas. Ao ser cobrado para pautar a instituição de um piso salarial nacional de R$ 3 mil para os profissionais de limpeza pública, Davi Alcolumbre alegou que o Senado concentra dezenas de propostas sobre tetos remuneratórios e jornadas de diferentes setores, o que impede uma escolha seletiva. Para ele, chancelar projetos que expandem gastos públicos em pleno período de campanha eleitoral traria severas complicações orçamentárias ao país.
Apesar do discurso de austeridade rígida para as carreiras profissionais, a pauta do plenário demonstrou prioridades distintas na última quarta-feira. O comando da Casa submeteu a voto e viu aprovado o texto que autoriza o direcionamento de recursos do Fundo Social do Pré-sal para o refinanciamento de débitos de produtores rurais. Estimativas governamentais apontam que a medida pode gerar uma renúncia fiscal e um custo aos cofres públicos da ordem de R$ 140 bilhões ao longo de uma década.
O Ministério da Fazenda tentou adiar a votação e renegociar as condições da matéria relatada no Senado, sob o argumento de que a saúde das contas públicas sairá prejudicada. Em resposta, a presidência da Casa argumentou que a deliberação atendeu a um compromisso político firmado previamente com os integrantes do parlamento. Diante da aprovação, o governo federal informou que buscará emendas corretivas durante a análise da matéria na Câmara dos Deputados e avalia acionar o Supremo Tribunal Federal, alegando desrespeito às regras da Lei de Responsabilidade Fiscal, de modo a evitar que o benefício seja concedido a setores que não comprovem perdas reais. Com informações da Agência Brasil

