Foco na prevenção de acidentes e na qualidade de vida marca debate inédito sobre a segurança dos trabalhadores em Pará de Minas
A Câmara Municipal de Pará de Minas foi palco, ontem (21), de um momento histórico voltado à preservação da integridade física e mental da classe trabalhadora. O evento “Maio do Trabalhador – Protegendo a Força de Trabalho de Pará de Minas” promoveu uma articulação inédita ao reunir gestores públicos, parlamentares, especialistas da saúde, forças de segurança e líderes de recursos humanos do setor privado. O encontro serviu para apresentar um diagnóstico detalhado sobre as causas e os severos impactos dos acidentes laborais e dos afastamentos por motivos de saúde no município. Organizado pelas secretarias de Saúde e de Gestão Pública, com o suporte do poder legislativo, o simpósio priorizou a construção de uma cultura preventiva e cooperativa entre patrões e empregados.

Os custos ocultos e o impacto dos afastamentos na cadeia produtiva
Os dados estatísticos acumulados em um intervalo de dez anos revelam números alarmantes sobre o impacto financeiro e operacional das ausências médicas em Pará de Minas. Segundo os levantamentos apresentados, as licenças decorrentes de problemas comuns de saúde — que não dão direito à estabilidade provisória no emprego — geraram um gasto previdenciário monumental de aproximadamente R$ 11,2 bilhões. Em contrapartida, os afastamentos motivados por acidentes de trabalho típicos, resguardados por lei, somaram cerca de R$ 3 bilhões.
No total, o município acumulou quase 3,2 milhões de dias de braços cruzados por ordens médicas ao longo do período analisado. Levando em conta que a cidade possui cerca de 100 mil habitantes e uma força de trabalho ativa estimada entre 40 mil e 45 mil profissionais, o tamanho desse desfalque torna-se ainda mais evidente.

A ausência do empregado não gera apenas um prejuízo contábil isolado. Conforme explicou o enfermeiro Wasley Novaes, responsável técnico pela Vigilância em Saúde do Trabalhador, esse fenômeno desencadeia um efeito cascata prejudicial dentro das corporações:
“A ausência de funcionário gera um impacto na cadeia e, inclusive, é prejudicial até aos outros colaboradores das empresas.”:
Wasley Novaes
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Novaes ressaltou que 77% da mão de obra do município está concentrada no perímetro urbano, distribuída entre os setores industrial, comercial e de serviços. No topo do ranking de acidentes figuram, de forma proeminente, a indústria do abate de animais, seguida de perto pela construção civil e outras atividades correlatas. Essas áreas concentram as ocorrências mais graves, frequentemente associadas a ferimentos por cortes, amputações de membros e quedas de altura.

O desafio invisível da mente e os perigos da má postura
Além das lesões físicas tradicionais, as discussões técnicas do seminário lançaram luz sobre as patologias que mais crescem nos balanços de RH: os transtornos mentais e as dores na coluna. Problemas como depressão severa, crises de ansiedade e a síndrome de burnout aparecem hoje entre as justificativas mais frequentes para a emissão de atestados médicos. Outro vilão cotidiano da produtividade é a dorsalgia, popularmente conhecida como dor nas costas.
O secretário municipal de Saúde e médico ortopedista, Gilberto Denoziro Valadares da Silva, usou sua experiência clínica para alertar sobre a negligência generalizada com a sustentação do corpo. Segundo o especialista, enquanto os membros inferiores e superiores são exercitados de forma natural nas atividades rotineiras de caminhar ou manipular objetos, a estrutura espinhal acaba esquecida pelo trabalhador.

“Na parte mais alta da coluna as costelas se seguram, elas melhoram, não força tanto. Mas, principalmente na região cervical e na região lombar, não tem proteção nenhuma. Então, se você não tirar um tempo para fazer exercícios específicos para prevenir, você fatalmente vai ter dor nas costas.”
O médico e gestor recomendou que os profissionais dediquem momentos da semana para práticas direcionadas ao fortalecimento muscular profundo, citando modalidades como natação, hidroginástica, ioga e pilates, já que atividades genéricas como a caminhada não resolvem a sobrecarga mecânica na coluna:
Gilberto Denoziro Valadares da Silva
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Gilberto também chamou a atenção para a responsabilidade das corporações em fornecer ambientes com mobiliário adequado, cadeiras ergonômicas e telas alinhadas à altura dos olhos, reforçando a necessidade de se monitorar a saúde visual dos funcionários:
“Muitas vezes a pessoa não cuida da visão. A pessoa não tá enxergando bem, e ao invés de se acomodar, acaba forçando a postura.”

A imprudência ao volante no deslocamento diário
Os chamados acidentes de trajeto — aqueles que vitimam o colaborador no percurso de ida ou volta entre o lar e o posto de trabalho — também ganharam um debate central no formato de mesa-redonda. O painel contou com as visões práticas de representantes do Samu, do Corpo de Bombeiros, da Guarda Civil Municipal e da Polícia Militar, que lidam diretamente com o resgate de vítimas nas ruas da cidade.
De acordo com o 1º tenente da 19ª Companhia Independente da Polícia Militar, Marcos Leandro Nascimento, o comportamento do condutor nas vias é o fator determinante para o cenário atual. O militar apontou que os registros estatísticos indicam uma concentração clara de ocorrências em dias e horários específicos, coincidindo exatamente com os momentos de troca de turno e deslocamento profissional, como no intervalo do almoço (a partir do meio-dia) e no final da tarde (entre as 17h e 19h). Os dias mais críticos na cidade são as segundas e terças-feiras, com reduções significativas nos finais de semana.
“As principais causas de acidentes na cidade de Pará de Minas, a gente observa por meio dos registros dos dados estatísticos, é a falta de atenção. Temos outros pormenores também que afetam, como a pressa. O maior problema é a falta de atenção do condutor. A gente observa que muitas das vezes o condutor sai ali apressadamente e, por consequência, acaba causando um acidente.”:
Marcos Leandro Nascimento
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O militar também apontou o uso de telefones celulares ao volante ou guidão como uma infração grave que multiplica os riscos à vida. Além disso, analisou a mudança no perfil do tráfego local com a explosão da frota de motocicletas, impulsionada pela busca por maior mobilidade urbana.
O tenente manifestou preocupação com o surgimento recente das bicicletas e patinetes elétricos nas vias urbanas, destacando que as novas tecnologias exigem maior consciência. Ele reforçou a necessidade de guiar esses ciclomotores pelo lado direito da via, respeitando a velocidade máxima de 20 km/h e mantendo a atenção redobrada para evitar o atropelamento de pedestres:
Marcos Leandro Nascimento
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A conexão com o esgotamento profissional
O enfermeiro Wasley Novaes trouxe uma reflexão de cunho socioeconômico que ajuda a explicar essa pressa e desatenção apontadas pelas forças policiais. Segundo ele, a escassez de mão de obra qualificada no mercado fez com que algumas empresas reduzissem a jornada formal de seus quadros. Essa redução horária, que teoricamente daria mais tempo livre ao trabalhador para o lazer e a família, acabou gerando um efeito colateral reverso.
“Aconteceu um aumento da carga de trabalho, outro emprego e, consequentemente, cansaço. Cansaço, irritabilidade, depressão, tudo associado à dificuldade de concentração. Isso tudo pode estar afetando, inclusive, no próprio trajeto da casa para esses empregos.”:
Wasley Novaes
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Ação educativa e cooperação mútua
Diante desse cenário complexo, o papel da Vigilância em Saúde do Trabalhador em Pará de Minas foi detalhado para esclarecer equívocos comuns da população. Wasley explicou que o órgão municipal não se restringe a atender as demandas internas dos servidores da prefeitura, mas possui uma atribuição ampla de fiscalização e orientação em todo o território da cidade. O setor atua a partir de demandas próprias e também de representações encaminhadas pelo Ministério Público do Trabalho e pela Secretaria de Estado de Saúde.
Novaes deixou claro que o foco principal da atuação governamental é o aconselhamento e a readequação dos ambientes corporativos:
“Nosso trabalho é principalmente investigativo e educativo. A gente não tem uma função punitiva. A gente faz uma vigilância do ambiente e propõe soluções para aquele problema.”
Apesar da abordagem pedagógica, o órgão possui autoridade para estipular prazos para a correção de falhas e riscos de acidentes. Caso as exigências sejam ignoradas pelas empresas, o caso é formalmente encaminhado ao Ministério Público para a aplicação das sanções legais cabíveis:
Wasley Novaes
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Ao fim do evento, os palestrantes reforçaram que a segurança do trabalho deve ser entendida como uma via de mão dupla. Cabe ao funcionário ter a prudência de aliar sua experiência profissional ao uso correto dos equipamentos de segurança fornecidos.
Por outro lado, cabe às lideranças empresariais manter um olhar humanizado e atento para identificar sinais de estafa física ou mental em suas equipes. Investir em programas de treinamento contínuo, oferecer suporte psicológico e propor períodos de afastamento preventivo para tratamento médico são caminhos apontados para garantir uma real qualidade de vida no ambiente laboral.

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