Desafios climáticos exigem novas estratégias para o controle biológico no Brasil
As transformações no clima global estão redefinindo as relações no campo. O aumento das temperaturas, a instabilidade nas chuvas e a maior concentração de dióxido de carbono na atmosfera estão alterando o chamado “triângulo da doença”, composto pela planta, pelo patógeno e pelo ambiente. Quando o clima muda, esse equilíbrio é rompido, modificando o ciclo de vida de insetos e microrganismos, o que exige uma adaptação urgente das técnicas de proteção de cultivos.
De acordo com pesquisas da Embrapa Meio Ambiente, o aquecimento global tende a favorecer vetores como pulgões, cigarrinhas e mosca-branca. Com o calor, esses insetos apresentam ciclos de vida mais curtos e maior longevidade, resultando em explosões populacionais que aumentam a incidência de viroses nas plantações. Além disso, as alterações climáticas impactam as comunidades de microrganismos benéficos que vivem no solo e nas raízes, o que pode oscilar a eficácia dos agentes de controle biológico aplicados pelos agricultores.
Bioinsumos como pilar da segurança alimentar
Diante desse cenário, o controle biológico deixa de ser apenas uma alternativa aos defensivos químicos para se tornar um componente vital da segurança alimentar. A ciência brasileira já trabalha na seleção de agentes biológicos preparados para os cenários climáticos do futuro, um esforço conjunto entre as unidades da Embrapa Meio Ambiente e Semiárido.
A sustentabilidade dos sistemas agrícolas depende agora de um uso mais inteligente dos processos biológicos. O fortalecimento de cultivares resistentes e a adaptação do manejo são passos decisivos para garantir que a agricultura brasileira permaneça resiliente e capaz de enfrentar as pressões ambientais crescentes.
Legislação e crescimento acelerado do mercado
O setor de biológicos no Brasil vive um momento de forte expansão, impulsionado pelo Programa Nacional de Bioinsumos de 2020 e pela recente Lei nº 15.070, aprovada no final de 2024. Esta legislação trouxe clareza jurídica ao definir o conceito de bioinsumo como produtos e tecnologias baseados em agentes vegetais, animais ou microbianos que atuam na nutrição do solo e no combate a pragas.
Os números refletem essa nova realidade: a área tratada com agentes de biocontrole no país saltou de 47 milhões de hectares na safra 22/23 para quase 79 milhões na safra 24/25, um crescimento superior a 34%. Atualmente, bionematicidas e bioinseticidas dominam o uso, representando 78% do mercado de biológicos, colocando o Brasil na vanguarda mundial do consumo dessas tecnologias.
A ciência por trás dos bioprotetores
O conceito moderno de controle biológico vai muito além da simples eliminação de uma praga. Especialistas ressaltam que o termo “bioprotetores” é, muitas vezes, o mais adequado, pois muitos agentes biológicos não matam o patógeno, mas fortalecem as defesas da planta ou interferem na agressividade do invasor.
Para fins didáticos, o controle biológico é dividido em quatro frentes:
Natural: O equilíbrio mantido pelo próprio ecossistema sem interferência humana.
Conservacionista: Práticas que preservam os inimigos naturais já existentes na área.
Clássico: Introdução de um inimigo natural vindo de outra região para controlar uma praga específica.
Aumentativo: Aplicação em larga escala de agentes produzidos industrialmente, sendo esta a modalidade que mais cresce comercialmente.
O desafio atual da pesquisa é integrar essas quatro abordagens para criar sistemas produtivos menos impactantes e mais preparados para as incertezas do clima nas próximas décadas.
Com informações da Embrapa


