Feijão sustentável no Cerrado reduz emissões de gases poluentes em 50% com uso de bactérias
Uma tecnologia baseada na força da natureza está revolucionando a produção de feijão no coração do Brasil. Pesquisas da Embrapa demonstram que a coinoculação — técnica que utiliza a mistura de bactérias benéficas — é capaz de cortar pela metade as emissões de óxido nitroso (N2O) em lavouras de feijão no Cerrado. O estudo, realizado em sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP), prova que é possível substituir fertilizantes sintéticos caros, como a ureia, por microrganismos que estimulam o crescimento da planta sem agredir o clima.
O óxido nitroso é um dos gases de efeito estufa mais preocupantes da atualidade: sua capacidade de reter calor na atmosfera é consideravelmente superior à do dióxido de carbono (CO2), e ele permanece no ambiente por mais tempo que o metano (CH4).
O poder da coinoculação e a fixação biológica
Diferente do uso convencional de adubos químicos, a estratégia de coinoculação utiliza um “time” de bactérias com funções complementares. O processo combina a Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN), realizada por bactérias das espécies Rhizobium tropici e Rhizobium freirei, com o estímulo ao crescimento radicular promovido pela Azospirillum brasilense.
Enquanto as primeiras capturam o nitrogênio do ar e o entregam diretamente à planta, a Azospirillum atua na produção de hormônios vegetais, como o ácido indol acético. O resultado é um sistema radicular mais robusto e funcional, permitindo que o feijoeiro explore o solo de forma mais eficiente. No experimento realizado na Fazenda Capivara (GO), o uso exclusivo dessa tecnologia emitiu apenas 0,208 kg de N2O por hectare, contra 0,404 kg registrados nas áreas que receberam ureia.
Produtividade recorde e rentabilidade no campo
Um dos maiores temores dos produtores ao trocar insumos sintéticos por bioinsumos é a queda na colheita. No entanto, a pesquisa coordenada pela Dra. Márcia Thaís de Melo Carvalho quebrou esse paradigma. A produtividade média com a coinoculação atingiu 3,2 mil quilos por hectare, um volume impressionante diante da média nacional de apenas 1,1 mil quilos.
Além do ganho ambiental, a substituição da ureia representa uma economia direta para o bolso do agricultor, reduzindo a dependência de fertilizantes importados e sujeitos a variações de preço no mercado internacional.
A sinergia dos sistemas integrados de produção
A eficácia dessas bactérias é potencializada quando aplicada em sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) consolidados. Áreas sob esse manejo há duas décadas, como as testadas em Goiás, apresentam solos extremamente ricos em matéria orgânica e com excelente saúde biológica.
O manejo envolve ciclos de três anos de pastagem (braquiária) seguidos por três anos de grãos (como soja, milho, arroz e feijão) sob o sistema de plantio direto. Essa diversificação cria um ambiente ideal para que os microrganismos prosperem, tornando a lavoura mais resiliente a extremos climáticos e promovendo uma agricultura regenerativa de baixa emissão de carbono.
Bioinsumos como o futuro da agricultura brasileira
O avanço dos estudos com bioinsumos não se restringe ao feijão. Pesquisas da Embrapa Soja e da Embrapa Agropecuária Oeste indicam que o uso de bactérias selecionadas também aumenta a eficiência do uso de nitrogênio em gramíneas como o milho em cerca de 25%.
Os resultados obtidos no Cerrado superam até as recomendações do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC). Enquanto o órgão da ONU preconiza que as emissões de óxido nitroso fiquem abaixo de 1% para o uso de fertilizantes, a taxa observada no sistema mineiro/goiano variou entre modestos 0,1% e 0,4%. Esses números consolidam o Brasil como líder em soluções tecnológicas para uma produção agrícola de alta eficiência e baixo impacto ambiental. Com informações da Assessoria de Comunicação da Embrapa


