Equilibristas do orçamento: endividamento bate recorde no Brasil enquanto inadimplência recua
O início de 2026 traz um cenário ambivalente para as finanças dos brasileiros. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela CNC, o volume de famílias com contas a vencer atingiu a marca histórica de 79,5% em janeiro. O índice iguala o recorde registrado em outubro passado e mostra que oito em cada dez lares possuem algum tipo de compromisso financeiro, como parcelamentos ou empréstimos.
Apesar do avanço no endividamento — que saltou de 76,1% em janeiro de 2024 para o patamar atual —, há uma notícia alvissareira: a inadimplência está em queda. Pelo terceiro mês consecutivo, o percentual de famílias que não conseguiram honrar seus pagamentos no prazo diminuiu, fixando-se em 29,3%.
O peso do cartão de crédito e a vulnerabilidade da baixa renda
O cartão de crédito continua sendo o grande protagonista das finanças domésticas, sendo citado por 85,4% dos endividados. Em contrapartida, os financiamentos de bens duradouros, como casas (9,6%) e carros (8,7%), ocupam fatias bem menores do bolo.
A pressão financeira, no entanto, não atinge a todos da mesma forma. O endividamento é muito mais agressivo nas camadas de menor poder aquisitivo. Entre as famílias que ganham até três salários mínimos (atualmente em R$ 1.621), o índice de endividados chega a 82,5%, e a inadimplência atinge quase 40% desse grupo. Para as famílias com renda superior a dez salários mínimos, a situação é mais confortável, com apenas 14,9% apresentando contas em atraso.
Juros nas alturas e o impacto da Selic no consumo
Um dos principais vilões do orçamento familiar é a taxa Selic, mantida pelo Banco Central em 15% ao ano, o maior nível em quase duas décadas. Os juros elevados funcionam como uma faca de dois gumes: são fundamentais para controlar a inflação (IPCA), que recentemente voltou ao intervalo de meta, mas encarecem drasticamente o custo do crédito e dificultam a quitação de débitos antigos.
Segundo a CNC, o comprometimento médio da renda das famílias com dívidas é de 29,7%. Entretanto, a situação é crítica para 19,5% dos lares, que já gastam mais da metade do que ganham apenas para pagar juros e parcelas. O tempo médio necessário para que uma família consiga se livrar totalmente de seus débitos atuais é de pouco mais de sete meses.
Perspectivas: juros menores e alívio no horizonte
A Confederação projeta que o endividamento continuará subindo no primeiro semestre, podendo alcançar 80,4% em junho. A boa notícia é que a inadimplência deve seguir sua trajetória de queda, impulsionada pela sinalização do Banco Central de que os cortes na taxa Selic devem começar em março.
A expectativa é que, entre o final do segundo e início do terceiro trimestre, o mercado de crédito apresente condições mais favoráveis, permitindo que as famílias renegociem débitos e recuperem o fôlego financeiro. Por ora, 12,7% dos brasileiros admitem que não terão condições de pagar suas dívidas atrasadas, o que reforça a necessidade de um planejamento rigoroso e cautela no uso de modalidades de crédito rotativo. Com informações da Agência Brasil

