Invisibilidade e angústia: crianças e adolescentes já somam quase 30% dos desaparecidos no Brasil

O cenário da segurança pública brasileira enfrenta um desafio crescente e alarmante. De acordo com os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp), o ano de 2025 revelou que quase um terço de todos os registros de desaparecimento no país envolvem menores de 18 anos. Das 84.760 ocorrências totais, 23.919 foram de crianças e adolescentes, o que representa 28% do volume nacional e uma média assustadora de 66 boletins de ocorrência lavrados por dia.

O perfil do desaparecimento infantojuvenil
Embora no cômputo geral dos desaparecidos os homens sejam a maioria (64%), quando o recorte foca no público jovem, o dado se inverte de forma drástica: as meninas representam 62% dos casos. Esse fenômeno aponta para vulnerabilidades específicas que demandam atenção redobrada das autoridades e da sociedade.

O aumento de 8% nas notificações de desaparecimento de menores entre 2024 e 2025 supera em dobro o crescimento dos casos gerais no mesmo período, evidenciando uma curva ascendente que preocupa especialistas, apesar de os números ainda serem inferiores aos registrados em 2019, quando a Política Nacional de Busca de Pessoas Desaparecidas foi implementada.

Entre o medo e o “desaparecimento estratégico”
As causas para o sumiço de uma criança são multifatoriais. Especialistas do Observatório de Desaparecimento de Pessoas no Brasil (ObDes), da UnB, sugerem que o fenômeno pode ser classificado em categorias como voluntário, involuntário (sem violência) e forçado. No entanto, um conceito ganha força no debate acadêmico: o “desaparecimento estratégico”.

Este termo refere-se a indivíduos que saem de casa como mecanismo de sobrevivência, fugindo de contextos de maus-tratos ou abusos domésticos. “A causa é complexa e diversa”, afirma a coordenadora do ObDes, Simone Rodrigues, reforçando que o pico das ocorrências costuma se concentrar entre sexta-feira e domingo.

O drama familiar e a barreira do julgamento social
O relato de Leandro Barboza, pai de um menino de 10 anos que desapareceu por três dias em Curitiba, ilustra a “agonia silenciosa” vivida pelas famílias. O garoto, que felizmente foi encontrado bem por um voluntário, revelou que o medo da punição após se afastar para brincar foi o que o impediu de voltar para casa na primeira noite.

Para além da dor da busca, as famílias enfrentam o estigma social. Leandro lamenta as críticas recebidas em redes sociais e até a postura de autoridades que, por vezes, transferem a culpa do desaparecimento aos pais que já estão em sofrimento extremo. “A gente se desdobra para cuidar e ensinar o melhor. Aí acontece algo assim e você vê muita gente te chamando de irresponsável”, desabafa o pai, que agora defende a necessidade de apoio psicológico especializado para orientar o diálogo entre pais e filhos após o trauma. Com informações da Agência Brasil

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