Cobrança por transparência e desfecho no acordo com a Vale mobiliza população rural e vereadores em Meireles
Um encontro marcado por fortes cobranças, resgate histórico e busca de respostas agitou a comunidade rural de Meireles, em Pará de Minas. A reunião aberta, promovida pela Comissão Especial da Câmara Municipal na Escola Municipal Marechal Deodoro, reuniu no sábado, 18 de julho, moradores e lideranças locais para passar a limpo a aplicação dos recursos decorrentes de uma multa paga pela mineradora Vale, em razão das obras da adutora no município.
Do montante total de R$ 10 milhões do acordo firmado com a Prefeitura de Pará de Minas e o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), R$ 1,5 milhão foi destinado exclusivamente para benfeitorias em Meireles. Contudo, os moradores denunciam que os investimentos previstos não se concretizaram como deveriam, gerando um prolongado impasse com a atual gestão do Poder Executivo.
Atrasos, falhas em obras e a indignação da comunidade
O presidente da Comissão Especial, vereador Gustavo Henrique Duarte Silva, explicou que os trabalhos investigativos do grupo já duram cerca de três meses e foram instaurados após cobranças incisivas da população na Tribuna Livre e em requerimentos formais.
“A comissão foi instaurada para investigar as insatisfações referentes ao uso e à aplicação desse dinheiro. O objetivo da visita é realizar uma escuta ativa sobre as reclamações, insatisfações e anseios futuros dos moradores. As informações coletadas integrarão o relatório final da comissão, que será encaminhado à Prefeitura, à comunidade e ao Ministério Público” — explicou o vereador Gustavo Henrique Duarte Silva.
Um dos pontos centrais da insatisfação é a execução do novo campo de futebol local. De acordo com o morador de Meireles, Rodrigo Campos, a própria população investiu recursos próprios que foi destinada a ela por meio dos recursos da multa, pagando R$ 360 mil pelo terreno e mais de R$ 700 mil na estrutura. No entanto, graves falhas de infraestrutura e fiscalização comprometeram a entrega final.
“A comunidade não exige nada além do que foi estritamente firmado no acordo original: a aplicação do R$ 1,5 milhão destinado a Meireles, as obras de terraplanagem do campo custeadas pelo prefeito e o saldo remanescente depositado em benefício da comunidade, com os devidos reajustes e correções financeiras” — afirmou Rodrigo Campos.
O morador Elton apontou omissão na fiscalização das obras do gramado, destacando que os próprios moradores precisaram intervir por conta própria para tentar salvar o local:
“A comunidade precisou espalhar cinco ou seis caminhões de terra por conta própria para tentar corrigir o problema da grama, que não estava vingando. O projeto original previa a colocação de terra apropriada sob a grama, mas a grama foi plantada diretamente sobre a terra compactada” — relatou Elton.
Para complicar o cenário, a empresa responsável pela obra faliu. O Presidente da Câmara Municipal, vereador Geraldo Magela de Almeida, o Geraldinho Cuíca, criticou duramente a postura da Prefeitura diante da situação:
“A Prefeitura errou ao dar a obra por acabada, pagar a empresa e perder as garantias jurídicas de execução correta” — pontuou o vereador Geraldinho Cuíca.
Atualmente, atualizado com juros e rendimentos, o saldo retido que deveria ser aplicado em melhorias para Meireles gira em torno de R$ 700 mil, de acordo com a comunidade. O vereador Délio Alves Ferreira reforçou a relevância da apuração promovida pelo Legislativo:
“As apurações da comissão revelaram fatos que até mesmo o promotor do Ministério Público desconhecia, ressaltando a validade do trabalho investigativo” — destacou o vereador Délio Alves Ferreira.
Saúde, atendimento odontológico e transporte para os alunos
Durante a escuta comunitária, a saúde pública e a assistência às crianças ganharam destaque. Moradores ressaltaram que a visita mensal de dentistas à escola rural atende apenas demandas superficiais, deixando alunos com quadros graves sem assistência, já que muitos pais não têm condições de levá-los até uma unidade de saúde na área urbana de Pará de Minas.
Sugeriu-se a estruturação de uma sala dedicada a atendimentos odontológicos e psicológicos no posto de saúde local para evitar deslocamentos desgastantes. Além disso, foi ressaltada a carência crítica de transporte público rural durante os dias úteis, isolando moradores que não possuem veículo próprio. A proposta apresentada foi a implantação de uma escala de transporte semanal ou o uso de cooperativas de vans para conectar as comunidades vizinhas.
Resgate cultural, elevação a distrito e calçamento histórico
O encontro também abriu espaço para homenagens a líderes históricos falecidos, como o “Seu Monico” — figura emblemática nos cuidados com o esporte local que dará nome ao campo — e a professora Dona Dorita, que lutou pela centenária Escola Municipal Marechal Deodoro, fundada em 1921.
Entre as propostas políticas debatidas, ganhou força a ideia de iniciar o processo de elevação do povoado de Meireles à categoria de distrito. Com uma população votante estimada entre 300 e 400 eleitores, a mudança permitiria ao local figurar de forma direta no orçamento municipal, a exemplo de localidades como Carioca e Córrego do Barro.
A população fez ainda um apelo em relação ao patrimônio viário. A concessionária Águas de Pará de Minas foi criticada por utilizar asfalto para tapar buracos abertos durante intervenções de esgoto, em vez de recompor o calçamento original de pedra. Por não haver rede de drenagem pluvial nas vias rurais, o paralelepípedo tradicional garante o escoamento adequado da água, e a comunidade cobra fiscalização da agência reguladora ARSAP para reparar os danos.
Papel da Câmara e elaboração do relatório final
Na reta final do debate, os parlamentares destacaram a função fiscalizadora do Legislativo e defenderam mecanismos de transparência orçamentária, ressaltando que a fiscalização rígida é essencial para garantir o cumprimento dos compromissos assumidos com o interior.
Ficou alinhada a realização de uma mesa de negociação reunindo o Prefeito, a Presidência da Câmara, a comissão de vereadores e o Ministério Público para buscar um desfecho formal ao acordo financeiro de Meireles. As informações e reivindicações colhidas farão parte do relatório final da Comissão Especial, que encerrará o ciclo de apurações e embasará as providências legais cabíveis.
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