Máquina de mentiras: conteúdos falsos com inteligência artificial saltam 308% no Brasil
A fronteira entre o real e o simulado tornou-se perigosamente tênue na internet brasileira. De acordo com o inédito “Panorama da Desinformação no Brasil”, elaborado pelo Observatório Lupa, o volume de peças desinformativas geradas por Inteligência Artificial (IA) mais do que triplicou no último ano. O salto foi de impressionantes 308% entre 2024 e 2025, revelando que a tecnologia se consolidou como a ferramenta predileta para enganar o cidadão.
O estudo indica que, enquanto em 2024 as deepfakes representavam apenas 4,6% das checagens da agência, em 2025 esse número escalou para 25%. Ou seja, um em cada quatro conteúdos verificados pelo observatório no último ano contou com o uso de algoritmos para manipular sons e imagens.
De golpes financeiros a arma de guerra política
O relatório identifica uma mudança drástica e preocupante na finalidade desses conteúdos. Se em 2024 a IA era usada predominantemente por estelionatários para aplicar golpes digitais — utilizando rostos de famosos para vender produtos falsos —, em 2025 o foco migrou para a arena ideológica.
Atualmente, quase 45% dos conteúdos criados por IA possuem viés político. A tecnologia está sendo empregada estrategicamente para atacar reputações e confundir o eleitorado. Mais de 75% dessas produções fraudulentas exploram a imagem ou a voz de figuras públicas. O levantamento detalha os alvos mais frequentes: o presidente Lula lidera com 36 ocorrências, seguido de perto pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (33) e pelo ministro do STF Alexandre de Moraes (30).
O fim do monopólio do WhatsApp na desinformação
Outra descoberta relevante do Observatório Lupa é a mudança no “mapa” de circulação das mentiras. O WhatsApp, que em 2024 era o destino de 90% das mensagens falsas, viu sua dominância cair para 46% em 2025. No entanto, os especialistas alertam: isso não significa uma melhora no aplicativo de mensagens, mas sim uma pulverização do problema.
As redes sociais de vídeos curtos, como TikTok e Kwai, ganharam um protagonismo sem precedentes na disseminação de fakes. A natureza dessas plataformas facilita o compartilhamento viral de vídeos manipulados, tornando a detecção da mentira mais difícil para o usuário comum, que consome informação de forma rápida e visual.
O desafio estrutural da verdade digital
A tecnologia de deepfake permite que rostos e vozes sejam alterados com um realismo assustador. Ao transformar o que era apenas um boato em texto em um vídeo onde uma autoridade parece dizer algo que nunca disse, o ecossistema de desinformação atinge uma nova escala de perigo.
O Observatório Lupa, que passará a publicar este panorama anualmente, reforça que estamos diante de uma mudança estrutural. A facilidade de acesso a ferramentas de geração de conteúdo por IA exige uma vigilância constante e um esforço redobrado de educação digital, sob o risco de a verdade ser definitivamente soterrada por simulações digitais. Com informações da Agência Brasil


