Classe C exige serviços públicos eficientes e sem burocracia, diz pesquisador
O segmento populacional correspondente à classe C reúne 53% da sociedade brasileira e não possui posição unânime sobre a dimensão ideal do Estado. Conforme análise do pesquisador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e autor do livro “Brasil da maioria: 25 anos da classe C”, lançado recentemente, a demanda prioritária desse grupo envolve o funcionamento efetivo das estruturas públicas.
Na avaliação do especialista, os integrantes dessa faixa de renda almejam um atendimento público aprimorado e simplificado. Ele salienta que a classe C concentra a maioria dos consumidores, trabalhadores urbanos, pequenos empresários, usuários de serviços estatais e eleitores no país. Apesar da diversidade interna, esse contingente experimentou avanços acelerados nas últimas três décadas, vivenciando em seguida uma redução no ritmo dessas conquistas, o que impulsionou o desejo por novas melhorias.
Em entrevista concedida por telefone à Agência Brasil, Meirelles detalhou as transformações socioeconômicas vividas por essa fatia da sociedade, ressaltando que ela ocupa o ponto central das definições políticas, sociais e econômicas nacionais. Ele observou que a busca pelo veículo zero quilômetro foi substituída pela aplicação de recursos em empreendimentos próprios.
Evolução econômica e novos horizontes de consumo
Segundo o pesquisador, a classe C abrange famílias com rendimento médio residencial de R$ 3,5 mil, considerando a soma dos ganhos de todos os moradores da casa. O grupo assumiu relevância estratégica para os rumos do país nos últimos 25 anos, impulsionado por políticas de distribuição de renda.
Antes da implementação do Plano Real em 1994, a visão de longo prazo da população apresentava limites estreitos, tornando o armazenamento de alimentos a principal forma de proteção financeira. A estabilização da moeda permitiu o planejamento de médio e longo prazo, favorecendo a formulação de metas pessoais.
Sequencialmente, programas de transferência de renda geraram um ciclo econômico positivo. O incremento no orçamento dos beneficiários da classe D expandiu as compras de produtos ofertados por pequenos comerciantes da classe C. Por sua vez, esse movimento elevou a demanda sobre o setor industrial, gerando contratações e pagamentos compatíveis com os padrões da classe intermediária.
Incomodismo e desaceleração do crescimento
O avanço da classe C ampliou as expectativas no consumo e na formação acadêmica, viabilizando marcos como o primeiro acesso ao transporte aéreo e o ingresso do primeiro membro familiar no ensino superior até o período entre 2010 e 2011.
Com a diminuição no ritmo de expansão da economia, a população percebeu uma desaceleração no processo de ascensão social. A mudança na velocidade do ganho do poder de compra gerou a sensação de estagnação na qualidade de vida.
Paralelamente, a ascensão da classe C provocou reações desfavoráveis nas faixas de maior renda, representadas pelas classes A e B, que manifestavam descontentamento com a presença desse público em espaços antes restritos e com o reconhecimento de direitos a trabalhadores domésticos. A partir de 2013, a perda de força na atividade econômica frustrou os anseios de consumo do segmento.
Transformações no mercado de trabalho e empreendedorismo
No cenário ocupacional, a busca por dignidade passou a ser associada ao controle sobre a própria rotina, motivando a transição de trabalhadores para serviços intermediados por aplicativos. A atratividade do trabalho autônomo cresceu na medida em que o emprego formal deixou de suprir as aspirações pessoais.
A alteração de percepção em relação à Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi influenciada pelas reformas trabalhista e da Previdência. Embora a busca por garantias permaneça, o modelo tradicional deixou de oferecer a mesma percepção de proteção social do passado.
A vivência do período pandêmico exemplifica essa mudança de comportamento. Trabalhadoras que enfrentavam longos deslocamentos no transporte público para auferir dois salários mínimos adaptaram suas habilidades manuais para gerar renda em suas próprias residências. Essa autonomia estimulou a permanência no trabalho independente, evitando o retorno aos empregos anteriores.
Expectativas em relação ao setor público
Os eleitores da classe C demonstram desgaste frente aos modelos políticos tradicionais e buscam alternativas para o cenário nacional. O segmento prioriza a entrega de serviços estatais funcionais e desburocratizados, superando divergências ideológicas sobre o tamanho da estrutura governamental.
A população dessa faixa de renda, habituada a avaliar serviços digitais de transporte e compras comerciais, espera um modelo público transparente e com canais diretos de prestação de contas por parte dos gestores. Com informações da Agência Brasil.


