Negros representam mais de 80% dos mortos em intervenções policiais no país, aponta relatório
A intersecção entre cor da pele, faixa etária e letalidade decorrente de ações de forças de segurança pública ganhou um novo e alarmante diagnóstico no cenário nacional. No decorrer de um ano, nove estados brasileiros contabilizaram, de forma conjunta, 4.330 óbitos resultantes de intervenções de agentes estatais, o que representa um incremento de 6,4% no comparativo com o ciclo anterior. Desse universo, a esmagadora maioria das vítimas possui o mesmo perfil étnico-racial: as pessoas negras (soma de pretos e pardos) responderam por 86,3% das ocorrências, totalizando 3.104 mortes documentadas.
Os indicadores foram consolidados na 7ª edição do relatório Pele Alvo – entre Racismo e Letalidade, o Amanhã, desenvolvido pela Rede de Observatórios do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC). O mapeamento foi estruturado a partir de dados fornecidos pelas pastas de segurança pública de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão, Pará, Piauí e Amazonas. Além do forte componente racial, os pesquisadores externaram preocupação com o perfil juvenil dos atingidos, visto que 64,8% dos mortos tinham no máximo 29 anos de idade, incluindo 310 registros de crianças e adolescentes residentes em comunidades periféricas. Sob a ótica estatística, um cidadão negro possui, em média, quatro vezes mais probabilidade de ser morto pela polícia do que um indivíduo branco, um deficit que se acentua de forma crítica em estados como Pernambuco, onde a chance é 11 vezes superior, e no Rio de Janeiro, com risco seis vezes maior.
Expansão de facções e falhas na catalogação de raça reconfiguram a violência no Norte e Nordeste
A dinâmica da criminalidade passou por transformações estruturais motivadas pelo deslocamento e articulação de grandes facções originárias do Sudeste, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), em direção às regiões Norte e Nordeste, travando disputas de território com grupos locais. Esse fenômeno impulsionou recordes negativos de letalidade policial em quatro estados que atingiram as maiores marcas desde 2019: São Paulo (834 mortes), Pará (632), Ceará (200) e Maranhão (142).
O território maranhense liderou a aceleração da violência com uma explosão de 86,8% nos óbitos em confronto, impulsionada pela disputa por rotas de escoamento de drogas entre ramificações nacionais e o grupo local Bonde dos 40. O estudo aponta que o crescimento dos indicadores também está atrelado à redução de omissões históricas na catalogação de dados étnico-raciais pelos governos. No Maranhão, a ausência de registro de cor nas fichas de óbito caiu de 67,7% para 54,9%, enquanto no Ceará recuou de 77,2% para 57,5%. O preenchimento mais rigoroso dessas lacunas institucionais fez com que o percentual de vítimas identificadas como negras subisse 22 pontos percentuais no Maranhão e cerca de oito pontos no Ceará, escancarando o peso do racismo nos confrontos.
Piauí registra único recuo na letalidade enquanto Rio de Janeiro adota termo polêmico
No detalhamento regional, a Bahia registrou 1.570 mortes por intervenção. Embora o número sinalize queda perante o pico histórico do ano anterior, os analistas ressaltam que em apenas 19 dias de todo o ano o estado não contabilizou mortes causadas por forças policiais, num cenário de intenso conflito que envolve mais de 20 organizações criminosas. Pernambuco teve alta de 30,8% nas mortes por policiais, ao passo que Pará e São Paulo subiram 12,3% e 2,3%, respectivamente. O Amazonas estabilizou suas taxas em 43 casos. Na contramão, o Piauí se consolidou como a única unidade federativa a computar declínio em sua taxa de letalidade, com retração de 16,67%, desempenho atribuído pelos autores à forte cobrança e monitoramento exercidos por movimentos sociais, órgãos acadêmicos e pelo Ministério Público local.
No Rio de Janeiro, onde o índice geral escalou 13,8%, chamou a atenção dos pesquisadores o desdobramento da Operação Contenção, nos Complexos da Penha e do Alemão, onde 115 mortos foram classificados oficialmente pelo poder público sob a nomenclatura de “narcoterroristas”. O relatório critica o uso do termo e a associação indiscriminada dos indivíduos a episódios de violência extrema, avaliando que tais narrativas institucionais operam para legitimar e normalizar a letalidade nas políticas de segurança fluminenses.
Veja os principais dados por estado destacados no relatório:
Amazonas: 75% dos óbitos foram provocados por policiais militares; as vítimas eram 100% do sexo masculino; e a capital, Manaus, concentrou 37,21% dos registros.
Bahia: Homens totalizaram 99,6% das vítimas; metade dos casos ocorreu em apenas 12 cidades; e houve mortes em 346 dos 365 dias do ano.
Ceará: Mais da metade dos mortos (50,5%) concentrou-se em 12 municípios; 64% tinham entre 18 e 29 anos; e 57,5% das ocorrências não traziam identificação de raça.
Maranhão: 100% das vítimas eram do sexo masculino; jovens de até 29 anos responderam por 67,6% dos óbitos; e 11 municípios concentraram 50,7% das ocorrências.
Pará: Registrou 4.028 mortos em ações policiais em um período acumulado de sete anos; 61,4% dos óbitos recentes envolveram jovens de 18 a 29 anos; e a Polícia Militar respondeu por 89,7% das ocorrências.
Pernambuco: A capital, Recife, respondeu por 12,4% dos casos; todas as vítimas eram homens; e um policial civil ou militar foi morto no decorrer das intervenções.
Piauí: Exibiu taxa de 85% de vítimas negras; jovens de 18 a 29 anos somaram 55% dos mortos; e 65% das ocorrências envolveram confrontos com a Polícia Militar.
Rio de Janeiro: Incremento de 13,8% nas mortes por agentes; a população masculina respondeu por 96,5% das vítimas; e o município do Rio de Janeiro concentrou 56,3% dos casos.
São Paulo: Acumulou quase 5 mil mortes decorrentes de intervenção em sete anos; homens representaram 98,7% dos registros atuais; e a capital paulista abrigou 30,5% dos casos.
Secretarias estaduais de segurança defendem legalidade e apontam resistência de criminosos
Acionadas para comentar as conclusões divulgadas pelo estudo da Rede de Observatórios, as pastas estaduais apresentaram manifestações divergentes. A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) declarou que os procedimentos adotados pelas polícias civil e militar do estado são rigorosamente balizados por preceitos operacionais, técnicos e legais, pautando-se em protocolos que elegem a preservação da vida como prioridade absoluta. O órgão negou veementemente a utilização de características pessoais ou cor da pele para fins de abordagens e operações, frisando que as ações decorrem de investigações de inteligência, mandados judiciais, registros de queixas e flagrantes. A pasta assegurou que as mortes são enviadas para apuração da Corregedoria-Geral e acompanhadas pelo Ministério Público, além de destacar aportes contínuos em cursos de aperfeiçoamento profissional com foco na redução de confrontos violentos.
A Secretaria de Estado de Segurança Pública do Rio de Janeiro contrapôs o relatório enfatizando que o indicador de Mortes por Intervenção de Agentes do Estado (Miae) tem apresentado trajetória de declínio. Apoiando-se em dados consolidados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), a assessoria fluminense informou que o acumulado de janeiro a maio de 2026 computou 295 ocorrências, o que configura um recuo de 12% perante o primeiro semestre do ano anterior, atingindo o menor deficit para o período desde o ano de 2014. O governo fluminense reiterou que suas corporações priorizam o planejamento e o uso de inteligência estratégica, asseverando que os confrontos armados nas comunidades são iniciados pela resistência de quadrilhas organizadas que atacam os policiais em serviço. Com informações da Agência Brasil
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