Inimigo invisível no campo causa rombo bilionário na produção de milho do Brasil
Considerada o maior desafio sanitário para a agricultura brasileira nas últimas décadas, a cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) tem provocado prejuízos astronômicos. Um estudo detalhado da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) revela que a praga gera um impacto anual de aproximadamente R$ 33,6 bilhões (US$ 6,5 bilhões).
Entre as safras de 2020 e 2024, as perdas acumuladas superaram a marca de R$ 134 bilhões, refletindo uma redução média de 22,7% na produtividade nacional. O pesquisador da Embrapa Cerrados, Charles Oliveira, alerta para a gravidade da situação: “Em cerca de 80% das localidades avaliadas, a cigarrinha ou os enfezamentos foram apontados como fator central para a queda de produtividade”.
O custo da proteção e o impacto no prato do brasileiro
Além da perda direta de grãos — cerca de 31,8 milhões de toneladas que deixam de ser colhidas anualmente —, os agricultores enfrentam uma escalada nos custos de produção. Os gastos com inseticidas subiram 19% no período, ultrapassando R$ 46 por hectare.
O problema, no entanto, atravessa as fronteiras das fazendas. Como o milho é o pilar fundamental para a alimentação de aves e suínos, além da produção de leite e biocombustíveis, a queda na oferta encarece os alimentos para o consumidor final. Maria Cristina Canale, pesquisadora da Epagri, destaca que essas quebras “elevam os preços para o consumidor e afetam a balança comercial brasileira”.
A biologia da praga e a ausência de cura
A cigarrinha funciona como um vetor de bactérias que causam os chamados “enfezamentos” (pálido e vermelho). Ao sugar a seiva de plantas doentes, o inseto se contamina e espalha a enfermidade para lavouras sadias. “Não há tratamento preventivo contra o enfezamento causado pela praga, o que pode levar à perda total de lavouras”, ressalta Charles Oliveira.
Embora conhecida desde os anos 70, a praga tornou-se epidêmica após 2015. A explicação reside na mudança do sistema produtivo, como a expansão da “safrinha” e o cultivo de milho durante quase todo o ano, o que garante alimento e abrigo constante para o inseto.
Estratégias de manejo e sobrevivência
Para proteger o terceiro maior produtor mundial de milho, especialistas recomendam um conjunto rigoroso de práticas, já que o uso isolado de agrotóxicos tem se mostrado insuficiente devido à resistência desenvolvida pelo inseto. As principais orientações incluem:
Eliminação do milho tiguera: Destruir plantas voluntárias que crescem na entressafra para interromper o ciclo da praga.
Plantio sincronizado: Evitar longas janelas de semeadura na mesma região.
Uso de sementes resistentes: Optar por variedades que suportem melhor a pressão da doença.
Controle biológico: Utilizar fungos que são inimigos naturais da cigarrinha como alternativa ao controle químico.
Tiago Pereira, assessor técnico da CNA, reforça que o controle eficiente é vital para a economia do país: “A praga representa perdas que impactam diretamente a renda do produtor, a estabilidade produtiva e a competitividade do país”. Com informações da Agência Brasil


