Entenda a mola gestacional pode evoluir para câncer de placenta e acende alerta para diagnóstico precoce

Uma notícia muito esperada se transformou em um momento de dor para a terapeuta ocupacional Daiana Nascimento há aproximadamente dois anos. Logo após confirmar a tão sonhada gestação, a realização da primeira ultrassonografia revelou um diagnóstico inesperado. Em um intervalo inferior a trinta dias, ela enfrentou a perda do bebê e a confirmação de um tumor gerado a partir do processo gestacional.

A complicação identificada no exame era a Doença Trofoblástica Gestacional, conhecida popularmente como “mola”. Essa alteração benigna tem potencial de se transformar em um tumor maligno na placenta em até 20% dos casos, como o verificado com a terapeuta.

Entenda o que é a mola gestacional
O quadro se origina a partir de um erro no momento da fecundação. Na modalidade de mola incompleta, um óvulo saudável é fertilizado por dois espermatozoides ou por um espermatozoide com material genético duplicado, resultando na formação de uma placenta atípica e de um embrião com malformações genéticas incompatíveis com o desenvolvimento.

Por sua vez, a mola completa ocorre quando um óvulo sem material genético é fertilizado da mesma forma, desenvolvendo somente a estrutura placentária alterada, sem a presença do embrião.

Em ambas as situações, torna-se indispensável interromper a gravidez e realizar o procedimento de remoção da massa, evitando riscos de hemorragias uterinas, complicações na tireoide e descompensação da pressão arterial.

A complicação mais grave é a evolução para o câncer de placenta, caracterizado pela fixação das células do tecido no útero. Esse desfecho ocorre em menos de 5% dos casos de mola parcial, contudo atinge uma em cada cinco mulheres diagnosticadas com a versão completa. Em quadros mais agressivos, o tumor pode gerar metástase, afetando principalmente os pulmões.

A dimensão da doença no Brasil
A estimativa é que a condição atinja de uma para cada 200 até 400 gestantes no país, número superior aos índices dos Estados Unidos (uma a cada mil) e da Inglaterra (uma a cada duas mil), conforme detalha Antônio Braga, docente de obstetrícia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional da Maternidade Escola da instituição. As razões para essa oscilação geográfica continuam em investigação científica, com hipóteses voltadas a fatores nutricionais, genéticos e imunológicos.

A maior parte das pacientes descobre a presença da mola durante exames de rotina no início do pré-natal. A unidade da Maternidade Escola da UFRJ, vinculada ao Sistema Único de Saúde, chega a atender aproximadamente 80 mulheres semanalmente, recebendo moradoras da capital fluminense, do interior do estado e de outras regiões do país. Cerca de 30% das assistidas possuem convênio privado de saúde, mas buscam o centro de referência especializado. A assistência prestada em locais especializados reduz significativamente as taxas de mortalidade.

Acompanhamento criterioso e conduta terapêutica
A retirada do tecido por aspiração uterina marca a fase inicial do protocolo. O material passa por avaliação histopatológica para definir a classificação do problema. Na sequência, a paciente passa por consultas periódicas de acompanhamento e monitoramento das taxas do hormônio HCG.

Diferente de outros tumores humanos, a detecção do câncer de placenta não exige biópsia, sendo confirmada pelo próprio hormônio gestacional, que atua como marcador tumoral.

Caso o nível do hormônio não regrida até a normalização após a remoção da mola, confirma-se que o tecido se alojou no útero, demandando tratamento quimioterápico. Quando tratadas de forma adequada, a maior parte das mulheres atinge a cura total e pode voltar a engravidar futuramente.

Essa é a expectativa mantida por Daiana e por seu marido, Lucas Felipe. Com o tratamento quimioterápico concluído e as taxas hormonais restabelecidas, ela aguarda a liberação médica após o período de observação necessário para evitar falsos diagnósticos.

Recomendação de cirurgia e suporte emocional
Em casos de pacientes em idade mais avançada, com prole constituída ou sem o desejo de novas gestações, pode haver a indicação da histerectomia, que consiste na retirada do útero.

Essa foi a conduta adotada para Mônica Rosa do Amaral Pelizari, que recebeu o diagnóstico da mola e a confirmação do tumor após um aborto espontâneo aos 45 anos. Com o amparo de familiares e da equipe de assistência, Mônica passou pelas sessões de quimioterapia e pelo procedimento cirúrgico entre os anos de 2018 e 2019, alcançando a cura. Hoje, mantém acompanhamento médico anual.

O acolhimento psicológico e social desempenha papel central ao longo de todo o processo, amenizando o impacto emocional decorrente da perda gestacional combinada ao diagnóstico oncológico. As equipes médicas ressaltam às pacientes que a condição ocorre ao acaso, sem qualquer relação de culpa. O suporte se estende também aos familiares e acompanhantes, que enfrentam adaptações na rotina e desafios logísticos e financeiros durante o período de tratamento. Com informações da Agência Brasil

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