Consumo de álcool, cigarro e bebidas adulteradas podem causar cegueira, alertam especialistas
Hábitos comuns podem levar à cegueira irreversível
O consumo prolongado de tabaco e de álcool, somado à ingestão acidental de substâncias tóxicas como o metanol presente em bebidas adulteradas, representa um risco severo à saúde ocular, podendo ocasionar danos irreversíveis e cegueira. Os alertas integram o livro Neuro-Oftalmologia, obra lançada em setembro durante o 70º Congresso Brasileiro de Oftalmologia, na cidade de Salvador, que aborda desde fundamentos anatômicos até inovações tecnológicas de diagnóstico e tratamento na área que une a neurologia e a oftalmologia. O material foi organizado pelos médicos Eric Pinheiro de Andrade, Leonardo Provetti Cunha e Mário Luiz Monteiro.
Fundamentos da neuro-oftalmologia
Conforme esclarece o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), o globo ocular constitui a única estrutura corpórea que permite ao médico examinar diretamente o sistema nervoso central de maneira não invasiva, por meio do nervo óptico, que atua como uma ramificação cerebral direta. A subespecialidade dedica-se a investigar distúrbios visuais originados no cérebro ou nos nervos ópticos, servindo frequentemente como o primeiro indicativo de enfermidades neurológicas tratáveis.
O campo abrange o diagnóstico de condições como neurites ópticas ligadas à esclerose múltipla, infartos no nervo óptico, compressões decorrentes de tumores pituitários e aneurismas, papiledema originado por hipertensão intracraniana e paralisias causadas por visão dupla. O escopo inclui ainda as neuropatias de natureza tóxica, carencial e hereditária, grupo que engloba os prejuízos provocados pelo tabagismo, pelo alcoolismo e por intoxicações químicas. No tocante ao metanol, a ingestão tóxica afeta todo o trajeto entre a retina e o córtex cerebral, gerando adoecimento e perda visual severa. Segundo a entidade, esse domínio técnico permite ao especialista identificar a lesão antes mesmo de exames complementares como a ressonância magnética.
Sintomas e manifestações de alerta
Nas neuropatias tóxicas e carenciais associadas ao cigarro e ao álcool, a deterioração da visão manifesta-se de forma gradual, indolor e bilateral, o que retarda a busca por ajuda médica. Os pacientes costumam relatar manchas ou borrões na região central da visão, mantendo preservada a área periférica, além do desbotamento de cores, em que o vermelho adquire um tom de rosa lavado. Já nos quadros de intoxicação por metanol, os sintomas emergem em um intervalo de seis a 24 horas, compreendendo turvação, aversão à luz, dilatação pupilar e perda na distinção cromática, podendo evoluir para cegueira definitiva, episódios convulsivos e coma.
A recomendação médica aponta a necessidade de avaliação especializada urgente diante de alterações repentinas, visão dupla que desaparece ao ocluir um dos olhos, queda palpebral progressiva ao longo do dia, dores associadas à movimentação ocular ou cefaleias persistentes acompanhadas de escurecimento visual ao se levantar.
Abordagem diagnóstica e condutas terapêuticas
De acordo com o CBO, a anamnese constitui o procedimento mais poderoso e frequentemente subestimado da especialidade, sendo capaz de solucionar até 90% dos casos por meio de um diálogo direcionado sobre histórico familiar, restrições alimentares, cirurgias bariátricas prévias, uso de fármacos tóxicos e o padrão de consumo de substâncias como álcool e tabaco. Na etapa seguinte, realizam-se avaliações clínicas das pupilas, dos campos visuais, da visão cromática, da motilidade ocular e do fundo de olho, complementadas por tomografia de coerência óptica (OCT) para mensuração de fibras nervosas, ressonâncias, dosagem de vitamina B12 e testes eletrofisiológicos.
Quanto aos tratamentos, as neuropatias tóxicas exigem a interrupção imediata do agente nocivo, enquanto as carências nutricionais demandam reposição vitamínica acelerada. Os episódios agudos de intoxicação por metanol constituem emergências médicas baseadas no uso de antídotos, combate à acidose e procedimentos de diálise. Para as demais patologias neurológicas que comprometem a visão, o manejo terapêutico abrange desde o uso de altas doses de corticosteroides e plasmaférese para neurites até procedimentos cirúrgicos, radioterapia e terapias-alvo em casos tumorais. Com informações da Agência Brasil.

