Doença de Parkinson ultrapassa tremores e prejudica atividades cotidianas

Na percepção da sociedade, a Doença de Parkinson é frequentemente associada apenas à presença de tremores. Na prática do dia a dia, no entanto, a maior sobrecarga para os pacientes e seus familiares decorre de um conjunto amplo de limitações, como a morosidade ao iniciar um movimento, a rigidez do corpo, o sentimento de insegurança durante a caminhada, a diminuição do equilíbrio, episódios de travamento muscular e o prejuízo da autonomia em atividades rotineiras, a exemplo de levantar-se de uma cadeira ou mudar de posição na cama.

A conscientização acerca dessa enfermidade neurológica, que possui caráter crônico e evolutivo, busca enfatizar que os impactos da condição vão muito além do sintoma visível mais popular. Segundo dados compilados pela Organização Mundial da Saúde, a incidência do problema mais do que duplicou no decorrer dos últimos 25 anos, atingindo uma marca superior a 8,5 milhões de indivíduos diagnosticados globalmente no ano de 2019.

Somados aos tremores, o quadro clínico pode abranger o enrijecimento da musculatura, a lentidão geral das reações motoras, a instabilidade na postura, perdas no equilíbrio, desordens no sono, desaceleração intestinal, redução da capacidade olfativa, ansiedade e episódios depressivos. Por apresentarem uma evolução gradual, é frequente que essas manifestações sejam erroneamente atribuídas ao envelhecimento natural, ao cansaço diário ou à falta de disposição.

Conforme analisa a fisioterapeuta e mestre em Ciências Médicas Mariana Milazzotto, essa sutilização dos sintomas iniciais faz com que a gravidade da doença seja minimizada na fase de início. A especialista explica que, embora o tremor seja o sinal que mais chama a atenção, não é necessariamente ele que impõe as maiores restrições à rotina, uma vez que a perda de independência para realizar ações antes feitas de forma autônoma é o fator que mais impacta a vida do indivíduo.

Papel da fisioterapia na preservação da mobilidade
Esse novo entendimento sobre os desdobramentos da patologia tem redefinido a atuação da fisioterapia ao longo do tratamento. O trabalho de reabilitação física deixou de ser enxergado como um mero recurso secundário e passou a figurar como um elemento central para garantir a mobilidade, a capacidade funcional e a independência da pessoa por períodos mais longos.

Diretrizes atualizadas divulgadas pela Parkinson’s Foundation destacam que a realização de exercícios físicos planejados desempenha um papel relevante no gerenciamento das manifestações motoras e não motoras, favorecendo o bem-estar geral. As orientações médicas englobam treinos aeróbicos, fortalecimento da musculatura, alongamentos e dinâmicas focadas no equilíbrio, na agilidade e na execução de múltiplas tarefas simultâneas, devendo ser ajustadas ao nível de progressão da enfermidade e às condições do indivíduo.

A aplicação prática dessas recomendações foca o treino de habilidades essenciais para a autonomia do paciente. Mariana Milazzotto pontua que o objetivo não se resume ao exercício genérico, mas envolve reaprender ações específicas que estão sendo comprometidas, tais como levantar da posição sentada, mudar o rumo do deslocamento, sustentar a postura correta, dar passos mais largos e reagir com menor insegurança ao ambiente ao redor.

A profissional salienta que a fisioterapia intervém para transformar as dificuldades diárias no eixo principal do tratamento. Segundo ela, à medida que o organismo se torna mais lento e rígido, o paciente tende a se movimentar menos, acelerando a perda das funções físicas. A prática guiada surge para desacelerar essa perda e resguardar a autonomia restante.

Repercussões na rotina do lar e apoio familiar
Os efeitos da perda de mobilidade manifestam-se em contextos extremamente práticos da rotina diária. A limitação não ocorre apenas no ato de andar, mas se reflete no momento de se levantar da cama, higienizar-se, vestir as roupas, acomodar-se em um veículo, percorrer espaços estreitos ou tentar realizar duas tarefas no mesmo instante, alterando a dinâmica de toda a casa.

Outro ponto que exige atenção é o comportamento dos familiares diante do declínio funcional do parente. Movidos pelo desejo de proteger, muitos acompanhantes passam a executar todas as atividades no lugar da pessoa com Parkinson, o que pode gerar consequências indesejadas. De acordo com a fisioterapeuta, embora o auxílio seja fundamental, substituir o indivíduo de forma irrestrita pode acelerar o comprometimento de suas capacidades, sendo recomendável oferecer suporte sem anular a participação ativa do paciente naquilo que ele ainda consegue realizar.

O equilíbrio entre garantir a segurança e incentivar o estímulo constante é apontado como o caminho adequado. A especialista reforça que o paciente precisa de auxílio, mas também necessita dar uso ao próprio corpo dentro dos limites seguros, prevenindo que o organismo perca capacidades por falta de treino.

A reabilitação física atua de forma integrada com a assistência médica, o uso de medicamentos, o suporte familiar e, em diversos cenários, o acompanhamento por equipes multiprofissionais. O objetivo principal é assegurar as funções diretamente ligadas à rotina, ao equilíbrio e ao bem-estar do indivíduo.

Mariana Milazzotto reforça que a conscientização sobre o tema deve afastar a ideia fixa de que a doença se limita a tremores, direcionando o olhar para a forma como o paciente se locomove, reage e sustenta suas tarefas diárias. Diante do envelhecimento populacional e da maior prevalência de condições neurológicas de longa duração, o diagnóstico precoce e a intervenção ágil mostram-se determinantes para a qualidade de vida das pessoas afetadas e de suas famílias. Com informações da Assessoria de Comunicação da fisioterapeuta e mestre em Ciências Médicas Mariana Milazzotto.

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