Sol sobre as águas: Itaipu estuda expandir geração elétrica com painéis flutuantes
A Itaipu Binacional, gigante da geração hidrelétrica na fronteira entre Brasil e Paraguai, está voltando seus olhos para o céu. Um experimento iniciado no final do ano passado utiliza a vasta superfície de seu reservatório — que possui 170 quilômetros de extensão — para testar a viabilidade da energia solar flutuante. Atualmente, uma estrutura com 1.584 painéis fotovoltaicos ocupa uma área de 10 mil metros quadrados sobre o espelho d’água, demonstrando um potencial técnico surpreendente para o futuro da segurança energética.
Embora a planta atual gere 1 megawatt-pico, o suficiente para abastecer 650 residências apenas para consumo interno da usina, os números teóricos impressionam. De acordo com Rogério Meneghetti, superintendente de Energias Renováveis da Itaipu, se apenas 10% da área inundada fosse coberta por placas solares, a capacidade de geração seria equivalente a toda a atual estrutura hidrelétrica. O projeto funciona como um laboratório vivo, analisando desde a resistência dos flutuadores aos ventos até o impacto da sombra das placas na vida aquática e na temperatura da água.
Hidrogênio verde e o futuro da mobilidade sustentável
Além do sol, a binacional investe pesado na “molécula do futuro”. Por meio do Itaipu Parquetec, um polo de inovação em Foz do Iguaçu (PR), a usina desenvolve o hidrogênio verde através da eletrólise da água. Este combustível é considerado sustentável por não emitir gases do efeito estufa em sua produção, podendo ser utilizado em diversos setores industriais e no transporte pesado.
O Centro Avançado de Tecnologia de Hidrogênio já colhe frutos práticos dessa pesquisa. Recentemente, um barco movido a hidrogênio, desenvolvido no parque tecnológico, foi enviado para auxiliar na coleta seletiva em comunidades ribeirinhas próximas a Belém, durante a COP30. O espaço serve como uma plataforma de validação para a indústria nacional, testando desde protótipos de ônibus até carretas movidas pelo combustível limpo.
Do lixo ao combustível: A revolução do biogás e do SAF
A gestão de resíduos em Itaipu também ganhou um novo propósito. Materiais orgânicos dos restaurantes da usina e mercadorias apreendidas em fiscalizações de fronteira, que antes seriam descartados em aterros, agora são transformados em biometano. Nos últimos nove anos, mais de 720 toneladas de detritos foram processadas, gerando combustível capaz de mover veículos por uma distância equivalente a 12 voltas ao redor do planeta.
O próximo passo dessa evolução é o desenvolvimento do SAF, o combustível sustentável de aviação. Através de um processo experimental, o biogás é convertido em óleo sintético, um insumo essencial para reduzir a pegada de carbono do setor aéreo. Especialistas indicam que, nos próximos dez anos, o hidrogênio verde e os combustíveis avançados, como o SAF, serão os grandes protagonistas da transição energética global.
Expansão exige atualização de tratado histórico
Para que essa produção solar e de biocombustíveis ganhe escala comercial e seja integrada à rede elétrica, será necessária uma atualização diplomática. O Tratado de Itaipu, assinado em 1973, foca primordialmente na fonte hidrelétrica. Engenheiros estimam que, com os investimentos corretos, seriam necessários cerca de quatro anos para instalar uma infraestrutura solar capaz de gerar 3 mil megawatts, o que representaria um acréscimo de 20% na capacidade instalada da binacional. Com informações da Agência Brasil

