Estratégias simples no manejo de meliponários diminuem falhas de localização entre abelhas

Adoções de práticas acessíveis e de baixo custo financeiro têm capacidade para diminuir os equívocos de orientação espacial cometidos por abelhas-sem-ferrão no retorno aos seus ninhos. O levantamento desenvolvido por especialistas da Embrapa Meio Ambiente, situada no estado de São Paulo, em parceria com pesquisadores da Universidade de Bristol, no Reino Unido, aponta que a proximidade excessiva das estruturas e o aspecto visual idêntico das caixas causam desorientação nas operárias ao voltarem da coleta no campo, fazendo com que ingressem em colmeias erradas. Esse fenômeno, denominado drifting, quando recorrente, facilita a proliferação de agentes patogênicos, organismos parasitas e até contaminações por defensivos agrícolas, prejudicando a saúde dos insetos e a rentabilidade do mel.

O estudo é conduzido por Ana Paula Cipriano, estudante de doutorado na instituição britânica e participante do grupo Bristol Bee Group, sob orientação do professor Christoph Grüter e coorientação do pesquisador Cristiano Menezes, da Embrapa Meio Ambiente. A investigação avaliou o comportamento de duas espécies nativas do território brasileiro de grande relevância para a polinização de lavouras e da vegetação tropical: a Scaptotrigona depilis e a Melipona quadrifasciata.

Pela primeira oportunidade na ciência, análises experimentais mensuraram o impacto direto da disposição física dos ninhos na frequência das falhas de navegação das abelhas-sem-ferrão, indicando que intervenções organizacionais contêm o problema e suas sequelas.

Ajustes práticos reduzem falhas de navegação
Nos testes aplicados com a espécie Melipona quadrifasciata, conhecida popularmente como mandaçaia, a comparação entre diferentes formatos de disposição das caixas revelou variações expressivas. Em cenários em que todos os recipientes mantinham a mesma coloração e entradas alinhadas para a mesma direção, a taxa de drifting alcançou 59,5%. Ao preservar o padrão de cores idêntico, mas alternar a orientação das aberturas, o índice caiu para 48,1%. Já na aplicação de pintura com tonalidades variadas em cada caixa, mantendo o direcionamento das entradas para o mesmo lado, a frequência de erros despencou para 37,6%.

Os dados comprovam que adequações simples trazem respostas significativas no manejo diário. O emprego de recipientes com cores distintas gerou queda de 21,9% na desorientação em relação à organização convencional, enquanto a simples mudança de posição da entrada das caixas reduziu as falhas em 11,4%.

Conforme apontam os cientistas, a capacidade de localização dos insetos não depende unicamente da distância física mantida entre os ninhos, estando atrelada também a pontos de referência visuais e espaciais durante o voo de regresso. Cristiano Menezes enfatiza que o levantamento avaliou de maneira inédita a influência da organização do espaço no comportamento de drifting, ressaltando que ações como pintar os recipientes ou alterar o lado da entrada já provocam retração importante nos erros de navegação.

Esses achados trazem impactos positivos para os criadores. Além de frear o contágio de enfermidades e parasitas entre as colônias, o recurso às marcas visuais e variações de direcionamento viabiliza o manejo de um número maior de estruturas em áreas reduzidas. Menezes complementa que a percepção de que a navegação utiliza atalhos visuais auxilia na organização dos locais de criação e otimiza a colheita dos produtos gerados pelos insetos.

Ana Paula Cipriano/Embrapa

Monitoramento por microetiquetas de radiofrequência
A pesquisa emprega igualmente a aplicação de microetiquetas de radiofrequência (micro tags), tecnologia alemã ainda pouco difundida no Brasil para acompanhamento de abelhas-sem-ferrão de pequeno porte. Os dispositivos são fixados individualmente no dorso do inseto utilizando adesivo sem odor, representando cerca de 11% da massa corporal do animal.

Os leitores eletrônicos registram horários exatos de saída e chegada, duração das viagens, frequência de visitas a caixas vizinhas e intervalos de maior movimentação. Tais informações são cruzadas com variáveis do ambiente, como temperatura local e umidade. Ana Paula Cipriano explica que o sistema opera como um rastreador minucioso de cada passo do inseto, revelando condutas comportamentais que anteriormente passavam despercebidas.

A pesquisadora argumenta que a meta principal é compreender como agentes estressores do tipo químico e ambiental alteram o senso de direção do animal, elevando os episódios de troca indesejada de colmeias. A especialista alerta que, quando a falha ocorre com alta frequência, o problema deixa de ser pontual e passa a ameaçar todo o coletivo do meliponário.

Efeitos da exposição a defensivos agrícolas
Entre os meses de fevereiro e abril de 2025 e 2026, os cientistas avaliaram as consequências da exposição das abelhas da espécie Scaptotrigona depilis ao inseticida imidacloprido e ao herbicida glifosato, produtos amplamente presentes no meio rural. Os insetos receberam doses realistas, equivalentes às encontradas habitualmente em áreas de cultivo.

Conforme dados preliminares do estudo, o contato com tais substâncias modifica a dinâmica de voo das operárias. Apesar de encontrarem o caminho de volta aos ninhos, elas realizam quantidade menor de saídas para coleta e reduzem o tempo em atividade.

Ana Paula Cipriano destaca que, sob efeito dos produtos químicos, as abelhas continuam se desorientando, porém reduzem o volume de viagens. Ao combinar a aplicação de inseticida com glifosato, foram registradas rotas de coleta com duração pelo menos 34% mais curtas.

O pesquisador Cristiano Menezes avalia que o comportamento observado se assemelha ao registrado em estudos desenvolvidos com a abelha-europeia Apis mellifera. O especialista esclarece que o glifosato afeta o direcionamento espacial e, ao perder pontos de referência, o inseto aumenta a probabilidade de entrar em um ninho vizinho, espalhando patógenos e comprometendo o equilíbrio do ecossistema local.

A diminuição na duração e na quantidade das viagens reflete ainda na menor entrada de alimento na colônia. Nas próximas fases do trabalho, a equipe planeja capturar novamente os indivíduos monitorados para avaliar peso corporal, volume de pólen carregado, qualidade do néctar coletado e as consequências na nutrição das colônias.

Cristiano Menezes/Embrapa

Ameaças sobrepostas e proteção da biodiversidade
As populações de abelhas enfrentam múltiplos fatores de pressão, a exemplo da aplicação intensiva de agrotóxicos, oscilações do clima, destruição de habitats naturais e alastramento de doenças. Quando atuam juntos, esses elementos multiplicam os índices de mortalidade dos enxames.

Mesmo configurando um evento natural e esporádico, o drifting assume papel de rota primária de transmissão de infecções quando ocorre em locais com alta densidade de caixas ou sob ação de agentes que prejudicam a percepção espacial das operárias.

Ana Paula Cipriano ressalta que o foco do grupo de pesquisa reside no aprofundamento do conhecimento a respeito das espécies brasileiras para embasar políticas de proteção, lembrando o papel fundamental dessas espécies na preservação da biodiversidade e na sustentabilidade do setor agrícola.

A união de técnicas de rastreamento individual, testes controlados e análises detalhadas da conduta dos insetos visa esclarecer como elementos químicos e estruturais interagem no cotidiano das colmeias, gerando dados úteis para conter perdas econômicas no setor apícola e preservar o serviço de polinização, vital para a segurança alimentar do planeta.

O trabalho científico é assinado por Ana Paula Cipriano, Cristiano Menezes, Milly Munro, Emily Bell e Christoph Grüter. Com informações da Assessoria de Comunicação da Embrapa.

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