Pesquisa inédita revela abismo no acesso a diagnósticos e tratamentos para autistas no Brasil
O cenário da neurodivergência no país acaba de ganhar contornos mais nítidos e preocupantes. O estudo Mapa Autismo Brasil (MAB), primeiro levantamento sociodemográfico nacional focado exclusivamente neste público, aponta que o sistema de saúde brasileiro enfrenta gargalos críticos. Divulgada pelo Instituto Autismos, a pesquisa indica que a confirmação da condição e o início das intervenções terapêuticas ainda são privilégios distantes de uma parcela significativa da população.
Embora o Censo do IBGE estime que 1,2% dos brasileiros possuam o Transtorno do Espectro Autista (TEA), o MAB revela que apenas 20,4% dos diagnósticos são realizados via Sistema Único de Saúde (SUS). A dependência da rede privada é evidente: mais de 60% dos pacientes recorrem a planos de saúde ou pagamentos particulares para conseguir atendimento, evidenciando uma desigualdade geográfica e econômica profunda no acesso a especialistas como neurologistas e psiquiatras.
Déficit em terapias e carga horária insuficiente
A assistência terapêutica é um dos pontos mais sensíveis do relatório. Menos de 16% dos entrevistados conseguem realizar tratamentos pela rede pública. Mesmo para quem possui cobertura privada, a intensidade das intervenções está longe do recomendado por protocolos internacionais de saúde. Mais da metade dos participantes realiza, no máximo, duas horas de terapia por semana, enquanto especialistas sugerem abordagens multidisciplinares com cargas horárias mais elevadas para garantir o desenvolvimento do indivíduo.
A jornada do cuidado também recai de forma desproporcional sobre as famílias. O estudo destaca que 92,4% dos cuidadores são mães, e cerca de 30% delas estão desempregadas ou sem renda fixa. Esse dado sugere que a dedicação exigida pelo tratamento de um filho autista muitas vezes força o afastamento da mulher do mercado de trabalho, ampliando a vulnerabilidade financeira dessas residências.
Desafios na educação e inclusão escolar
No campo educacional, estar matriculado não tem sido sinônimo de estar incluído. Quase 40% dos estudantes autistas informaram que não recebem nenhum tipo de suporte especializado nas escolas, como mediadores ou adaptações pedagógicas. Embora a maioria frequente instituições públicas, a falta de recursos básicos de acessibilidade indica que a implementação das políticas de educação inclusiva ainda carece de investimento e fiscalização para sair do papel.
Vida adulta e o mercado de trabalho
Para os autistas adultos, o desafio se desloca para a autonomia e sustento. Cerca de 30% dos entrevistados nessa faixa etária estão fora do mercado de trabalho. Entre os que possuem ocupação, a estabilidade do serviço público e o regime CLT são as principais vias de inserção, mas a informalidade ainda atinge uma parcela considerável. O estudo reforça que, sem políticas públicas que incentivem a contratação e o suporte contínuo, a inclusão social plena permanece como um objetivo a ser conquistado na próxima década. Com informações da Agência Brasil


